sábado, 11 de fevereiro de 2017

Papo Reto

- Cara, eu fui até lá.
- Onde?
- Do outro lado, cara! Quando a gente morre! Lembra daquele papo que tivemos sobre o que rola depois da morte?
- Jura? Não acredito!
- Sim, eu fui. E foi terrível. Assustador!
- Mas, o que você viu? Você morreu, tipo, morreu e voltou?
- Sei lá. Eu não quero nem me lembrar. Dá um medo do caralho!
- Mas, medo de quê? De voltar lá?
- É, cara. Dá o maior cagaço de voltar lá. A galera lá é sinistra!
- Mas, tem alguém lá? Vive gente do outro lado?
- Sim, mas não como nós. São terríveis, horrorosos, verdadeiros monstros assustadores.
- Porra, você tá brincando? Tá imaginando coisas, cara. Deve ter cheirado algum bagulho ruim. Tá tomando ácido? Fumando crack? Já disse prá não entrar nessa trip que não tem volta!
- Quem dera tivesse sido uma viagem. Mas foi real. Muito real.
- Mas como você foi parar lá? Falamos sobre se existia ou não o outro lado, mas nunca em como chegar lá sem ter morrido!
- Sabe aquela vidente aqui do bairro, aquela cigana que nossas mães viviam indo quando a gente era moleque?
- Aquela gostosa da D. Neusa? Sei. Eu fiquei sabendo.
- Sabendo de quê?
- Minha mãe foi no enterro.
- De quem?
- Da Neusa, porra!
- Quando foi que ela morreu?
-Semana passada. Acho que foi na terça-feira. Mataram ela.
- Impossível.
- Por que?
- Ela veio aqui em casa ontem.
- Caralho! Como assim?
- Bateu na porta, eu estava sozinho. Atendi e ela entrou de boa. Me deu um vidro desses que tem xarope prá tosse e falou prá eu beber tudo. Ela estava estranha, me olhando fundo nos olhos e acho que me hipnotizou, sei lá. Ela disse que se eu bebesse, ia ver com meus próprios olhos para onde eu iria se eu continuasse a fazer as merdas que eu ando fazendo. Mas, antes ela me contou umas paradas sinistras.
- Que merdas, cara? A gente tá devagar com as paradas erradas.
- Ah, não fode! Quer dizer agora que roubar os outros e matar otário não é fazer merda? Galera que mata os outros na covardia, quando morre vai direto prá esse lugar dos infernos. Mas, D. Neusa me pediu prá fazer uns lances aí prá eu me livrar daquele lugar. Papo de justiça divina, vingança, essas paradas misteriosas, sabe?
- Porra, faz tempo que não rola nada, só uns bagulhos prá descolar uma grana. O trampo tá foda de conseguir e quando consegue, os caras te pagam uma merreca! Não dá nem prá dar uma moral em casa. Mas, porra e aí? Você bebeu o bagulho que ela ter deu?
- Bebi. Ela me olhava no fundo dos meus olhos, cara. Bebi e apaguei. Quando acordei, estava naquele inferno. Só voltei quando ouvi a voz dela me chamando. Mas o pior foi o que aconteceu depois.
- Qual é, tem coisa pior?
- Sabe o Nelio?
- Tá sumido. Acho que aprontou alguma merda e fugiu. Meteu o pé. Vazou!
- Pois é. E nem vai voltar.
- Por que?
- Eu matei ele.
- O quê? Tá de sacanagem comigo!
- Dei um tiro na cara do babaca e joguei ele lá no rio com um sapato de cimento. Esse não aparece mais.
- Ih, fodeu!
- Por que? Ninguém vai saber!
- Foi ele quem matou a D. Neusa. Entrou na casa dela doidão, estuprou a coroa, esculachou mesmo. Depois cortou o pescoço dela. Levou tudo. Ouro prá caralho, grana e o celular.
- Ué? Como você sabe que foi ele?
- Porra, foi mal. Eu estava junto. Mas eu não comi a coroa não. Só segurei pro Nelio fazer o serviço. Mas até que deu vontade. A coroa continua gostosa. Mas esse negócio de compartilhar mulher na hora da foda não rola comigo. Ainda mais estupro. Comigo o negócio tem que ser no carinho. Mas sabe como o Nelio é. O cara fica boladão depois que cheira.
- Você ajudou a matar a D. Neusa?
- Pô, era prá ser só assalto, mas o filho da puta do Nelio não de aguentou quando viu a coroa. Puta peitão, bundão, ele partiu prá cima. Ela tentou se livrar mas ele rasgou o pescoço dela. O pior foi arrancar os dentes de ouro dela. E tinha muito dente, cara. Cigano é foda!
- Cara, não acredito que você fez isso. Até os dentes? Caralho!
- Acho que ela nem me viu direito. Eu estava segurando ela por trás enquanto o Nelio esculachava. E a parada rendeu uma grana responsa!
- Fala aí! Matou o Nelio por que?
- Ele se jogou prá cima da Catiane. Veio cheio de conversinha e deu prá ela uns cordões de ouro. Agora eu sei de onde vieram. O filho da puta acabou comendo aquela piranha. Descobri a parada toda e apaguei os dois.
- Caralho! Matou a Catiane também? Cara, na boa, você sabe que eu tô fora dessa. Esse lance da Catiane com o Nelio, porra, sei lá. Tá muito estranho, cara. Porra, logo a Catiane? Ela não tinha nada com o Nelio, cara. Tu fez parada errada, cara! Ela tava grávida, porra!
- Grávida? Como você sabe disso? Ela estava comigo e eu não sabia desse lance de gravidez, brother! E tava parado na dela, aquela vadia! Mas o que tá feito tá feito. Não tem volta. Aliás, se estava grávida, o filho nem devia ser meu.
- Não. Não era não. Ela me contou.
- Então era do Nelio?
- Cara, sei lá. Acabou, não? Já morreram. Encerrou a conversa. Mas, só quero saber quem dedurou os dois.
- A Neusa. Não disse que quando ela veio me procurar ela me contou umas paradas sinistras? Era sobre os dois.
- Impossível!
- Cara, você tem certeza de que vocês mataram a D. Neusa?
- Porra, cara! O Nelio cortou o pescoço dela até ficar pendurado! Me deu até vontade de vomitar. Se não fosse uma cafungada no bagulho eu não ia ter coragem nem de ajudar a arrancar os dentes. Mas ele tava com um pó de primeira. Coisa fina de playboy cascudo! E ninguém desconfia de mim. Ela morreu, o Nelio morreu e eu estou tranquilo. Só você sabe da parada. Mas você é meu brother e vai ficar de boa, né? Já te disse que minha mãe foi no enterro! D. Neusa já era!
- Então como você me explica ela ter vindo até aqui? Será que ela desconfia de você?
- Qual é, cara! Assim você me assusta com essas paradas de assombração! Já te falei! D. Neusa tá mortinha! Game over!
- Na verdade, acho até que ela sabia que você vinha aqui hoje.
- Heim? Que papo é esse, brother?
- É papo reto! Olhe para trás. Perdeu, otário!
- D. Neusa? Não! Não! Por favor!


Fim.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

TERNURA

Com a ternura e paixão que só lembrara de ter sentido quando estava namorando sua agora esposa, abraçou sua pele, sentiu seu cheiro, afagou a linda penugem que cobria os mais íntimos detalhes, onde a pele se transformava em fino tecido róseo lembrando de tantos prazeres que aqueles quentes recantos lhe proporcionaram. Sua mão se embrenhava pelos cabelos louros perfumados por odores de banhos de espuma. Sirenes se aproximaram. –Quem teria ligado para a polícia? Pensou. Olhou para ela, sua esposa, que jazia completamente esfolada, somente com seus músculos expostos. –Querida! – disse ele calmamente, abraçando o monte de pele em seus braços – Foi você que chamou a polícia?

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Frio na Madrugada.

Saiu de casa. O frio era intenso, fora do normal para aquele mês. O sol ainda tardava em aparecer. Silêncio. Sentiu em seus pés a umidade do chão de terra batida. Olhou para baixo e, surpreso, viu que estava nu. Sentiu algo quente escorrer por suas costas. Levou sua mão até lá e sentiu o líquido viscoso, morno, saindo de uma enorme fenda aberta abaixo de sua omoplata esquerda. O frio não o deixava sentir dor. Um calafrio arrepiou suas têmporas enquanto seus olhos, buscando claridade na escuridão da noite, pareciam embaçados. A forte tonteira dobrou seus joelhos fazendo seu corpo desmoronar sobre suas pernas. Antes de qualquer lembrança sobre o que havia acontecido, a morte soprou sua alma.

Paul Richard Ugo.