quinta-feira, 1 de setembro de 2016

TERNURA

Com a ternura e paixão que só lembrara de ter sentido quando estava namorando sua agora esposa, abraçou sua pele, sentiu seu cheiro, afagou a linda penugem que cobria os mais íntimos detalhes, onde a pele se transformava em fino tecido róseo lembrando de tantos prazeres que aqueles quentes recantos lhe proporcionaram. Sua mão se embrenhava pelos cabelos louros perfumados por odores de banhos de espuma. Sirenes se aproximaram. –Quem teria ligado para a polícia? Pensou. Olhou para ela, sua esposa, que jazia completamente esfolada, somente com seus músculos expostos. –Querida! – disse ele calmamente, abraçando o monte de pele em seus braços – Foi você que chamou a polícia?

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Frio na Madrugada.

Saiu de casa. O frio era intenso, fora do normal para aquele mês. O sol ainda tardava em aparecer. Silêncio. Sentiu em seus pés a umidade do chão de terra batida. Olhou para baixo e, surpreso, viu que estava nu. Sentiu algo quente escorrer por suas costas. Levou sua mão até lá e sentiu o líquido viscoso, morno, saindo de uma enorme fenda aberta abaixo de sua omoplata esquerda. O frio não o deixava sentir dor. Um calafrio arrepiou suas têmporas enquanto seus olhos, buscando claridade na escuridão da noite, pareciam embaçados. A forte tonteira dobrou seus joelhos fazendo seu corpo desmoronar sobre suas pernas. Antes de qualquer lembrança sobre o que havia acontecido, a morte soprou sua alma.

Paul Richard Ugo.

terça-feira, 21 de junho de 2016

A Luz

Luz.
A luz que me ilumina
Custa caro
A luz que me ilumina
É diferente daquela que clareia o pensamento da gente
É diferente daquela que vem do sol
Que esquenta e faz nosso corpo suar
A luz que me ilumina
Custa caro
A luz que me ilumina
Mas ela é que dá a sombra necessária
A todo mistério no meu apartamento
E é da sombra que a gente retira
Os momentos que são só da gente
A luz que me ilumina
Custa caro
A luz que me ilumina
Ela é preciosa quando atravessa
O cristal de meu copo de uísque nacional
E se faz dourada
No reflexo em minha camiseta de malha
Ela é preciosa quando me deixa ler
O que tantos outros já escreveram
A luz que me ilumina
Custa caro
A luz que me ilumina
E é nela que penso agora

E pago a conta sempre com atraso.

segunda-feira, 28 de março de 2016

ESCOLHAS



Jack colocou umas poucas peças de roupas na mochila logo que acordou. Abriu a janela da sala e checou o tempo: estava perfeito! Aquela era a época que ele mais gostava – final de abril. O calor do verão se aproximava e o tempo, firme, seco e ensolarado trazia consigo a brisa fresca com cheiro de mar. Foi até a cozinha, preparou alguns sanduíches, a garrafa de suco de laranja, colocou na pequena bolsa térmica e pousou junto à mochila próximo da porta que dava para a varanda. Voltou até a cozinha, bebeu seu café que acabara de ficar pronto, comeu uns pedaços de queijo e um iogurte. Antes de sair, verificou se tudo estava trancado, janelas fechadas, luzes apagadas, cafeteira desligada enfim, o mesmo check list de quem sai de casa por um par de dias. Passou pelo quarto e pode ver Selena que ainda dormia profundamente. Pode ainda sentir o cheiro abafado de seu sono imerso no quarto escuro.
Pegou suas chaves e saiu fechando a porta sem fazer barulho. Seu carro estava ainda coberto de orvalho cujas pequenas gotas aquecidas pelos primeiros raios de sol se transformavam rapidamente em leves brumas que envolviam o metal. Jack abriu o portão da garagem, ligou o carro com seus bancos ainda frios e saiu pela estreita estrada de terra que levava até a rodovia principal. Enquanto dirigia, escolheu tateando com cuidado, um CD de rock progressivo do grupo Jethro Tull e aumentou o volume na música Too old to rock n’roll too young to die. Aquela música como tantas outras o transportava para um tempo anterior às suas escolhas que tanta dor estavam proporcionando. E isso o deixava feliz a ponto de sentir seus olhos marejados por uma incontrolável emoção provocada por uma forte saudade dele mesmo. Ao chegar no cruzamento com a rodovia, parou o carro para tentar decidir qual caminho seguir. Um levava a um balneário de lindas praias e águas transparentes que muito lembravam a praia do bairro onde nascera e isso lhe trazia flashes de suas lembranças brincando na fina e branca areia com baldinho e pazinhas. O outro levava até as montanhas que traziam as melhores recordações de suas férias de adolescente, seus passeios a cavalo, da lareira, do frio. Qualquer uma das escolhas seria definitiva. Estava decidido a cometer a insana atitude libertadora de largar tudo e tentar recomeçar um outro caminho que talvez pudesse lhe trazer alegrias e realizações que não havia conquistado até então. Para Jack, somente a coragem em fazer uma enorme ruptura poderia fazer com que ele reencontrasse sua própria vida. Estranhamente se viu compelido a desligar o carro. Ian Anderson cantava seus versos a altos brados e Jack desligou o CD player. O silêncio tomou conta do cenário avermelhado pelos raios do sol que insistia em nascer todos os dias. Olhou pelo espelho retrovisor como que tentando ver sua vida e seu passado recente. O vidro embaçado não mentia sobre suas impressões e se confundia com sua medíocre trajetória embaçada por suas escolhas. Por um tempo difícil de determinar Jack ficou ali, parado, entre a coragem de seguir um dos caminhos que antes proporcionaram tantos bons momentos e a covardia de retornar.

Jack ligou o carro, respirou fundo e manobrou o carro de volta à estrada de terra.