segunda-feira, 28 de março de 2016

ESCOLHAS



Jack colocou umas poucas peças de roupas na mochila logo que acordou. Abriu a janela da sala e checou o tempo: estava perfeito! Aquela era a época que ele mais gostava – final de abril. O calor do verão se aproximava e o tempo, firme, seco e ensolarado trazia consigo a brisa fresca com cheiro de mar. Foi até a cozinha, preparou alguns sanduíches, a garrafa de suco de laranja, colocou na pequena bolsa térmica e pousou junto à mochila próximo da porta que dava para a varanda. Voltou até a cozinha, bebeu seu café que acabara de ficar pronto, comeu uns pedaços de queijo e um iogurte. Antes de sair, verificou se tudo estava trancado, janelas fechadas, luzes apagadas, cafeteira desligada enfim, o mesmo check list de quem sai de casa por um par de dias. Passou pelo quarto e pode ver Selena que ainda dormia profundamente. Pode ainda sentir o cheiro abafado de seu sono imerso no quarto escuro.
Pegou suas chaves e saiu fechando a porta sem fazer barulho. Seu carro estava ainda coberto de orvalho cujas pequenas gotas aquecidas pelos primeiros raios de sol se transformavam rapidamente em leves brumas que envolviam o metal. Jack abriu o portão da garagem, ligou o carro com seus bancos ainda frios e saiu pela estreita estrada de terra que levava até a rodovia principal. Enquanto dirigia, escolheu tateando com cuidado, um CD de rock progressivo do grupo Jethro Tull e aumentou o volume na música Too old to rock n’roll too young to die. Aquela música como tantas outras o transportava para um tempo anterior às suas escolhas que tanta dor estavam proporcionando. E isso o deixava feliz a ponto de sentir seus olhos marejados por uma incontrolável emoção provocada por uma forte saudade dele mesmo. Ao chegar no cruzamento com a rodovia, parou o carro para tentar decidir qual caminho seguir. Um levava a um balneário de lindas praias e águas transparentes que muito lembravam a praia do bairro onde nascera e isso lhe trazia flashes de suas lembranças brincando na fina e branca areia com baldinho e pazinhas. O outro levava até as montanhas que traziam as melhores recordações de suas férias de adolescente, seus passeios a cavalo, da lareira, do frio. Qualquer uma das escolhas seria definitiva. Estava decidido a cometer a insana atitude libertadora de largar tudo e tentar recomeçar um outro caminho que talvez pudesse lhe trazer alegrias e realizações que não havia conquistado até então. Para Jack, somente a coragem em fazer uma enorme ruptura poderia fazer com que ele reencontrasse sua própria vida. Estranhamente se viu compelido a desligar o carro. Ian Anderson cantava seus versos a altos brados e Jack desligou o CD player. O silêncio tomou conta do cenário avermelhado pelos raios do sol que insistia em nascer todos os dias. Olhou pelo espelho retrovisor como que tentando ver sua vida e seu passado recente. O vidro embaçado não mentia sobre suas impressões e se confundia com sua medíocre trajetória embaçada por suas escolhas. Por um tempo difícil de determinar Jack ficou ali, parado, entre a coragem de seguir um dos caminhos que antes proporcionaram tantos bons momentos e a covardia de retornar.

Jack ligou o carro, respirou fundo e manobrou o carro de volta à estrada de terra.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Minh’alma Avoada.

 É alegre o vôo da pipa levando com ela minh’alma ligada ao meu corpo pela fina e frágil linha de algodão. Eu aqui no chão e minh’alma no céu. Meus pensamentos estão lá, no meio das nuvens, em conversas vivas com as andorinhas que anunciam a chegada da chuva no final do dia. Sinto o cheiro úmido de terra molhada vindo de longe. De repente vem outra pipa, feroz e rápida, vinda de não sei onde e num piscar de olhos ceifa minha linha fazendo minha pipa balouçar sem controle, desconectada de meu corpo. Corro sem saber onde piso, num caminho cheio de pedras, fenestras e tropeços e com olhar fixo na inanimada pipa largada ao vento como mecha de cabelo cortado, numa tentativa vã de salvá-la para resgatar minha alegria. Outros meninos correm para roubarem de mim o precioso troféu e se encherem de maneira espúria, da minh’alma e de minha alegria. É lícito pelas regras da vida. Pipa “avoada” perde seu dono, dizem. Caio ao chão sem perde-la de vista e assisto a pipa prender-se serenamente no alto de uma frondosa mangueira carregada de flores anunciando em sua profusão de rosa, verde, ferrugem e marron, a profícua colheita vindoura. Com os joelhos ralados cheios de terra misturada ao sangue que brota em pontinhos brilhantes eu grito:  _Vitória! Ainda verei uma parte de mim, mesmo que só o esqueleto em varetas de bambu, no topo desta mangueira! E quando as doces mangas começarem a cair, maduras pelo sol de janeiro, terei em minha boca o doce sabor de meus sonhos!

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Vingança

A cerveja desceu suave. Era como se tivesse aberto o caminho com uma dose de steinhaeger antes do gole merecido da bebida gelada. Olhos cerrados, franzindo suas têmporas que já apresentavam algumas rugas do tempo, o punho forte levantando a caneca de vidro transparente, levando como um guindaste criado pelo conjunto braço, punho, caneca e cabeça, a cerveja escorrer pelos cantos da boca. A cabeça inclinada evidenciava o pomo de adão, único a mostrar que o líquido descia escandalosamente rápido pela sua garganta. Em menos de 20 segundos, jogou sua cabeça para frente, maxilar travado, lábios dramaticamente abertos com um ruído sibilante saindo por entre os dentes amarelados pelo cigarro. A caneca bateu no balcão como um martelo. Um gemido de prazer em forma de um interminável “ah” fez o barman trazer, sem ser consultado, mais uma caneca com a bela bebida encimada por uma cândida espuma.
_ Este primeiro desceu bem. Foi para matar minha sede. Este segundo, bem, este é para sorver com calma e aproveitar o sabor. Não, não quero nada para comer. Quero sentir o álcool entrando sem interferências em meu sangue. Quero meu cérebro ébrio. Morrer de barriga cheia não me parece ser coisa boa. Não gosto de pensar na comida apodrecendo mais rápido que minha carne. Deve ser como um porco ou um perú recheados com frutas, farofas e outros recheios. Mortos mas estufados de comida. Eu disse a ela que fosse primeiro. Eu precisava passar aqui neste bar que tantas vezes me acolheu em minhas incertezas e nas errantes certezas. Ela insistiu para que eu ficasse. Para quê? Perpetuar o sofrimento? Manter por mais alguns minutos nossa tragédia viva? Ser ao seu lado, cúmplice de sua envolvente loucura que me leva agora a este extremo? Não! Ela que vá primeiro. Antes eu tinha que vir até o bar. Sempre foi assim! Ela concordou a contragosto.
_ Você prepara para mim? Acho que tenho medo – disse ela tranquilamente, certa de ter escolhido esta opção em por fim a sua vida.
_ Ora, eu preparo para você. Não corroo risco de ser preso por este delito. Não numa cadeia. Talvez num caixão barato. Mas só o meu corpo. Você me espera do outro lado como combinamos, ok?
_ Claro, meu amor. Não vou te decepcionar. Sou sua para sempre, aqui e depois da morte. Vamos viver eternamente!
Preparei o veneno como quem prepara um delicioso drink. Levei o copo até ela que pediu:
_ Agora sai. Não quero que você veja. Vai beber sua cerveja, se despedir de seu bar preferido. Estarei te esperando do outro lado. Confio em você.
Beijei sua boca buscando seu sabor com minha já sentenciada língua. Saí andando de costas e fechei a porta fazendo seu lindo e sorridente rosto desaparecer.
A segunda caneca acabou. _ Bebo outro ou paro por aqui? – pensei. Ora, vou tomar mais um e tomar coragem para concluir o que já está decidido. A terceira caneca chegou. Parecia mais brilhante, amarelo ouro, com a espuma branca e espessa contrastando com o escuro ambiente do bar. Talvez tenha olhado para a caneca com certa nostalgia, e percebido detalhes que antes não levava em conta. O que antes era apenas uma caneca de cerveja, parecia agora um presente de Deus, uma dádiva, um maná. Tirei do bolso de meu paletó o pequeno frasco do potente veneno e bebi de um só gole. Antes que ele chegasse ao estômago, tomei o conteúdo da caneca da mesma maneira que fiz com a primeira. Sem saber quanto tempo levaria para morrer, tirei umas notas de dinheiro do bolso e deixei no balcão. Não queria ir para o outro lado deixando dívidas de bar. Já as de banco, quem se importa com isso? Sempre me roubaram todos estes anos.
O bar começou a parecer turvo, minha cabeça ficou dormente, um gosto amargo de sangue subiu por minha garganta enchendo minha boca com seu ferruginoso sabor. Minha cabeça caiu inerte e pesada sobre o balcão, da mesma forma que eu fizera com as canecas durante dezenas de anos.
Saí de meu corpo, sentindo-me leve. Vi todos do bar correndo e tentando me reanimar. Achei aquilo engraçado pois sabia que era em vão. Virei para a porta, instintivamente buscando a saída e vi minha amada. Para minha surpresa, ela não estava morta. Estava acompanhada de uma outra, de mãos dadas. Olhou para meu corpo caído, com as pessoas se afastando por não terem mais nada a fazer, olhou para sua companheira e esboçaram um sorriso, saindo em seguida.
Pobre amada. Desde então assombro sua vida, transformando em medo todas as coisas a sua volta. Serei impiedoso em minha vingança até o dia que eu conseguir trazê-la para o meu lado. E ela será eternamente minha.



Paul Richard Ugo