“Às vezes creio que personifico o inconsciente obscuro da raça humana. Sei que soa mal porém me encanta...” Vincent Price
sábado, 23 de abril de 2016
quarta-feira, 30 de março de 2016
segunda-feira, 28 de março de 2016
ESCOLHAS
Jack colocou umas poucas peças de roupas na mochila
logo que acordou. Abriu a janela da sala e checou o tempo: estava perfeito!
Aquela era a época que ele mais gostava – final de abril. O calor do verão se
aproximava e o tempo, firme, seco e ensolarado trazia consigo a brisa fresca com
cheiro de mar. Foi até a cozinha, preparou alguns sanduíches, a garrafa de suco
de laranja, colocou na pequena bolsa térmica e pousou junto à mochila próximo
da porta que dava para a varanda. Voltou até a cozinha, bebeu seu café que
acabara de ficar pronto, comeu uns pedaços de queijo e um iogurte. Antes de
sair, verificou se tudo estava trancado, janelas fechadas, luzes apagadas,
cafeteira desligada enfim, o mesmo check list de quem sai de casa por um par de
dias. Passou pelo quarto e pode ver Selena que ainda dormia profundamente. Pode
ainda sentir o cheiro abafado de seu sono imerso no quarto escuro.
Pegou suas chaves e saiu fechando a porta sem fazer
barulho. Seu carro estava ainda coberto de orvalho cujas pequenas gotas
aquecidas pelos primeiros raios de sol se transformavam rapidamente em leves
brumas que envolviam o metal. Jack abriu o portão da garagem, ligou o carro com
seus bancos ainda frios e saiu pela estreita estrada de terra que levava até a
rodovia principal. Enquanto dirigia, escolheu tateando com cuidado, um CD de
rock progressivo do grupo Jethro Tull e aumentou o volume na música Too old to
rock n’roll too young to die. Aquela música como tantas outras o transportava
para um tempo anterior às suas escolhas que tanta dor estavam proporcionando. E
isso o deixava feliz a ponto de sentir seus olhos marejados por uma
incontrolável emoção provocada por uma forte saudade dele mesmo. Ao chegar no
cruzamento com a rodovia, parou o carro para tentar decidir qual caminho
seguir. Um levava a um balneário de lindas praias e águas transparentes que
muito lembravam a praia do bairro onde nascera e isso lhe trazia flashes de
suas lembranças brincando na fina e branca areia com baldinho e pazinhas. O
outro levava até as montanhas que traziam as melhores recordações de suas
férias de adolescente, seus passeios a cavalo, da lareira, do frio. Qualquer
uma das escolhas seria definitiva. Estava decidido a cometer a insana atitude
libertadora de largar tudo e tentar recomeçar um outro caminho que talvez
pudesse lhe trazer alegrias e realizações que não havia conquistado até então.
Para Jack, somente a coragem em fazer uma enorme ruptura poderia fazer com que
ele reencontrasse sua própria vida. Estranhamente se viu compelido a desligar o
carro. Ian Anderson cantava seus versos a altos brados e Jack desligou o CD
player. O silêncio tomou conta do cenário avermelhado pelos raios do sol que
insistia em nascer todos os dias. Olhou pelo espelho retrovisor como que
tentando ver sua vida e seu passado recente. O vidro embaçado não mentia sobre
suas impressões e se confundia com sua medíocre trajetória embaçada por suas
escolhas. Por um tempo difícil de determinar Jack ficou ali, parado, entre a
coragem de seguir um dos caminhos que antes proporcionaram tantos bons momentos
e a covardia de retornar.
Jack ligou o carro, respirou fundo e manobrou o carro de
volta à estrada de terra.
domingo, 27 de março de 2016
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Minh’alma Avoada.
É alegre o vôo da pipa
levando com ela minh’alma ligada ao meu corpo pela fina e frágil linha de
algodão. Eu aqui no chão e minh’alma no céu. Meus pensamentos estão lá, no meio
das nuvens, em conversas vivas com as andorinhas que anunciam a chegada da
chuva no final do dia. Sinto o cheiro úmido de terra molhada vindo de longe. De
repente vem outra pipa, feroz e rápida, vinda de não sei onde e num piscar de
olhos ceifa minha linha fazendo minha pipa balouçar sem controle, desconectada
de meu corpo. Corro sem saber onde piso, num caminho cheio de pedras, fenestras
e tropeços e com olhar fixo na inanimada pipa largada ao vento como mecha de
cabelo cortado, numa tentativa vã de salvá-la para resgatar minha alegria. Outros
meninos correm para roubarem de mim o precioso troféu e se encherem de maneira
espúria, da minh’alma e de minha alegria. É lícito pelas regras da vida. Pipa
“avoada” perde seu dono, dizem. Caio ao chão sem perde-la de vista e assisto a
pipa prender-se serenamente no alto de uma frondosa mangueira carregada de flores
anunciando em sua profusão de rosa, verde, ferrugem e marron, a profícua
colheita vindoura. Com os joelhos ralados cheios de terra misturada ao sangue
que brota em pontinhos brilhantes eu grito:
_Vitória! Ainda verei uma parte de mim, mesmo que só o esqueleto em
varetas de bambu, no topo desta mangueira! E quando as doces mangas começarem a
cair, maduras pelo sol de janeiro, terei em minha boca o doce sabor de meus
sonhos!
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Vingança
A cerveja
desceu suave. Era como se tivesse aberto o caminho com uma dose de steinhaeger
antes do gole merecido da bebida gelada. Olhos cerrados, franzindo suas
têmporas que já apresentavam algumas rugas do tempo, o punho forte levantando a
caneca de vidro transparente, levando como um guindaste criado pelo conjunto
braço, punho, caneca e cabeça, a cerveja escorrer pelos cantos da boca. A cabeça
inclinada evidenciava o pomo de adão, único a mostrar que o líquido descia
escandalosamente rápido pela sua garganta. Em menos de 20 segundos, jogou sua
cabeça para frente, maxilar travado, lábios dramaticamente abertos com um ruído
sibilante saindo por entre os dentes amarelados pelo cigarro. A caneca bateu no
balcão como um martelo. Um gemido de prazer em forma de um interminável “ah”
fez o barman trazer, sem ser consultado, mais uma caneca com a bela bebida
encimada por uma cândida espuma.
_ Este
primeiro desceu bem. Foi para matar minha sede. Este segundo, bem, este é para
sorver com calma e aproveitar o sabor. Não, não quero nada para comer. Quero
sentir o álcool entrando sem interferências em meu sangue. Quero meu cérebro
ébrio. Morrer de barriga cheia não me parece ser coisa boa. Não gosto de pensar
na comida apodrecendo mais rápido que minha carne. Deve ser como um porco ou um
perú recheados com frutas, farofas e outros recheios. Mortos mas estufados de
comida. Eu disse a ela que fosse primeiro. Eu precisava passar aqui neste bar
que tantas vezes me acolheu em minhas incertezas e nas errantes certezas. Ela
insistiu para que eu ficasse. Para quê? Perpetuar o sofrimento? Manter por mais
alguns minutos nossa tragédia viva? Ser ao seu lado, cúmplice de sua envolvente
loucura que me leva agora a este extremo? Não! Ela que vá primeiro. Antes eu
tinha que vir até o bar. Sempre foi assim! Ela concordou a contragosto.
_ Você
prepara para mim? Acho que tenho medo – disse ela tranquilamente, certa de ter
escolhido esta opção em por fim a sua vida.
_ Ora, eu
preparo para você. Não corroo risco de ser preso por este delito. Não numa
cadeia. Talvez num caixão barato. Mas só o meu corpo. Você me espera do outro
lado como combinamos, ok?
_ Claro,
meu amor. Não vou te decepcionar. Sou sua para sempre, aqui e depois da morte.
Vamos viver eternamente!
Preparei o
veneno como quem prepara um delicioso drink. Levei o copo até ela que pediu:
_ Agora
sai. Não quero que você veja. Vai beber sua cerveja, se despedir de seu bar
preferido. Estarei te esperando do outro lado. Confio em você.
Beijei sua
boca buscando seu sabor com minha já sentenciada língua. Saí andando de costas
e fechei a porta fazendo seu lindo e sorridente rosto desaparecer.
A segunda
caneca acabou. _ Bebo outro ou paro por aqui? – pensei. Ora, vou tomar mais um
e tomar coragem para concluir o que já está decidido. A terceira caneca chegou.
Parecia mais brilhante, amarelo ouro, com a espuma branca e espessa
contrastando com o escuro ambiente do bar. Talvez tenha olhado para a caneca
com certa nostalgia, e percebido detalhes que antes não levava em conta. O que
antes era apenas uma caneca de cerveja, parecia agora um presente de Deus, uma
dádiva, um maná. Tirei do bolso de meu paletó o pequeno frasco do potente
veneno e bebi de um só gole. Antes que ele chegasse ao estômago, tomei o
conteúdo da caneca da mesma maneira que fiz com a primeira. Sem saber quanto
tempo levaria para morrer, tirei umas notas de dinheiro do bolso e deixei no
balcão. Não queria ir para o outro lado deixando dívidas de bar. Já as de
banco, quem se importa com isso? Sempre me roubaram todos estes anos.
O bar
começou a parecer turvo, minha cabeça ficou dormente, um gosto amargo de sangue
subiu por minha garganta enchendo minha boca com seu ferruginoso sabor. Minha
cabeça caiu inerte e pesada sobre o balcão, da mesma forma que eu fizera com as
canecas durante dezenas de anos.
Saí de meu
corpo, sentindo-me leve. Vi todos do bar correndo e tentando me reanimar. Achei
aquilo engraçado pois sabia que era em vão. Virei para a porta, instintivamente
buscando a saída e vi minha amada. Para minha surpresa, ela não estava morta.
Estava acompanhada de uma outra, de mãos dadas. Olhou para meu corpo caído, com
as pessoas se afastando por não terem mais nada a fazer, olhou para sua
companheira e esboçaram um sorriso, saindo em seguida.
Pobre
amada. Desde então assombro sua vida, transformando em medo todas as coisas a
sua volta. Serei impiedoso em minha vingança até o dia que eu conseguir
trazê-la para o meu lado. E ela será eternamente minha.
Paul Richard Ugo
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