terça-feira, 21 de junho de 2016

A Luz

Luz.
A luz que me ilumina
Custa caro
A luz que me ilumina
É diferente daquela que clareia o pensamento da gente
É diferente daquela que vem do sol
Que esquenta e faz nosso corpo suar
A luz que me ilumina
Custa caro
A luz que me ilumina
Mas ela é que dá a sombra necessária
A todo mistério no meu apartamento
E é da sombra que a gente retira
Os momentos que são só da gente
A luz que me ilumina
Custa caro
A luz que me ilumina
Ela é preciosa quando atravessa
O cristal de meu copo de uísque nacional
E se faz dourada
No reflexo em minha camiseta de malha
Ela é preciosa quando me deixa ler
O que tantos outros já escreveram
A luz que me ilumina
Custa caro
A luz que me ilumina
E é nela que penso agora

E pago a conta sempre com atraso.

segunda-feira, 28 de março de 2016

ESCOLHAS



Jack colocou umas poucas peças de roupas na mochila logo que acordou. Abriu a janela da sala e checou o tempo: estava perfeito! Aquela era a época que ele mais gostava – final de abril. O calor do verão se aproximava e o tempo, firme, seco e ensolarado trazia consigo a brisa fresca com cheiro de mar. Foi até a cozinha, preparou alguns sanduíches, a garrafa de suco de laranja, colocou na pequena bolsa térmica e pousou junto à mochila próximo da porta que dava para a varanda. Voltou até a cozinha, bebeu seu café que acabara de ficar pronto, comeu uns pedaços de queijo e um iogurte. Antes de sair, verificou se tudo estava trancado, janelas fechadas, luzes apagadas, cafeteira desligada enfim, o mesmo check list de quem sai de casa por um par de dias. Passou pelo quarto e pode ver Selena que ainda dormia profundamente. Pode ainda sentir o cheiro abafado de seu sono imerso no quarto escuro.
Pegou suas chaves e saiu fechando a porta sem fazer barulho. Seu carro estava ainda coberto de orvalho cujas pequenas gotas aquecidas pelos primeiros raios de sol se transformavam rapidamente em leves brumas que envolviam o metal. Jack abriu o portão da garagem, ligou o carro com seus bancos ainda frios e saiu pela estreita estrada de terra que levava até a rodovia principal. Enquanto dirigia, escolheu tateando com cuidado, um CD de rock progressivo do grupo Jethro Tull e aumentou o volume na música Too old to rock n’roll too young to die. Aquela música como tantas outras o transportava para um tempo anterior às suas escolhas que tanta dor estavam proporcionando. E isso o deixava feliz a ponto de sentir seus olhos marejados por uma incontrolável emoção provocada por uma forte saudade dele mesmo. Ao chegar no cruzamento com a rodovia, parou o carro para tentar decidir qual caminho seguir. Um levava a um balneário de lindas praias e águas transparentes que muito lembravam a praia do bairro onde nascera e isso lhe trazia flashes de suas lembranças brincando na fina e branca areia com baldinho e pazinhas. O outro levava até as montanhas que traziam as melhores recordações de suas férias de adolescente, seus passeios a cavalo, da lareira, do frio. Qualquer uma das escolhas seria definitiva. Estava decidido a cometer a insana atitude libertadora de largar tudo e tentar recomeçar um outro caminho que talvez pudesse lhe trazer alegrias e realizações que não havia conquistado até então. Para Jack, somente a coragem em fazer uma enorme ruptura poderia fazer com que ele reencontrasse sua própria vida. Estranhamente se viu compelido a desligar o carro. Ian Anderson cantava seus versos a altos brados e Jack desligou o CD player. O silêncio tomou conta do cenário avermelhado pelos raios do sol que insistia em nascer todos os dias. Olhou pelo espelho retrovisor como que tentando ver sua vida e seu passado recente. O vidro embaçado não mentia sobre suas impressões e se confundia com sua medíocre trajetória embaçada por suas escolhas. Por um tempo difícil de determinar Jack ficou ali, parado, entre a coragem de seguir um dos caminhos que antes proporcionaram tantos bons momentos e a covardia de retornar.

Jack ligou o carro, respirou fundo e manobrou o carro de volta à estrada de terra.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Minh’alma Avoada.

 É alegre o vôo da pipa levando com ela minh’alma ligada ao meu corpo pela fina e frágil linha de algodão. Eu aqui no chão e minh’alma no céu. Meus pensamentos estão lá, no meio das nuvens, em conversas vivas com as andorinhas que anunciam a chegada da chuva no final do dia. Sinto o cheiro úmido de terra molhada vindo de longe. De repente vem outra pipa, feroz e rápida, vinda de não sei onde e num piscar de olhos ceifa minha linha fazendo minha pipa balouçar sem controle, desconectada de meu corpo. Corro sem saber onde piso, num caminho cheio de pedras, fenestras e tropeços e com olhar fixo na inanimada pipa largada ao vento como mecha de cabelo cortado, numa tentativa vã de salvá-la para resgatar minha alegria. Outros meninos correm para roubarem de mim o precioso troféu e se encherem de maneira espúria, da minh’alma e de minha alegria. É lícito pelas regras da vida. Pipa “avoada” perde seu dono, dizem. Caio ao chão sem perde-la de vista e assisto a pipa prender-se serenamente no alto de uma frondosa mangueira carregada de flores anunciando em sua profusão de rosa, verde, ferrugem e marron, a profícua colheita vindoura. Com os joelhos ralados cheios de terra misturada ao sangue que brota em pontinhos brilhantes eu grito:  _Vitória! Ainda verei uma parte de mim, mesmo que só o esqueleto em varetas de bambu, no topo desta mangueira! E quando as doces mangas começarem a cair, maduras pelo sol de janeiro, terei em minha boca o doce sabor de meus sonhos!