Antônio chegou cedo na Parreirinha de Alfama, no Beco do
Espírito Santo. Não havia entendido o motivo de seu editor ter marcado uma
reunião em um bairro boêmio e perigoso. Ao entrar na Parreirinha, leu num
recorte de jornal com a programação da casa, a seguinte frase: “Não tenham medo
da fama, de Alfama mal afamada, que a fama às vezes difama, gente boa, gente
honrada”. É claro que a casa de fados era uma das melhores de Lisboa e teve
sorte de ser o dia de apresentação de Argentina Santos dona do já famoso
estabelecimento, e isto já serviu de alento. Escolheu uma mesa de onde
estrategicamente, poderia ver quem entrava na casa e também assistir ao show.
Pediu uma porção de linguadinhos fritos e uma jarra de vinho branco. Já passava
das 9 horas e o editor da Bertrand não havia chegado. Antônio olhava para sua
pasta de couro surrado que abrigava os originais de seu segundo livro e algumas
outras anotações pessoais das quais guardavam enormes segredos. Aquilo era seu
maior tesouro. O seu primeiro livro havia feito certo sucesso, tendo sido
traduzido para o francês e para o inglês. Apesar de não ser o estilo que mais
gostava, foi o que pode fazer, em se tratando de uma “obra encomendada”. Já
este segundo livro era algo autoral, criado sem influências, vindo do que
achava ser do fundo de sua alma. Tinha certeza de que seria um grande sucesso.
Falava de amores, romances e os mistérios do coração. Argentina Santos iniciou
o show, com seu repertório castiço dolorido, talvez por ter nascido na Mouraria
e trazer as dores dos últimos mouros confinados por D. Afonso naquela região. O repertório lindo, que trazia aos olhos as
lágrimas das fontes termais de Al-Hamma, os deliciosos linguadinhos e as jarras
de vinho branco fizeram com que Antônio esquecesse de seu compromisso, que até
então não havia chegado. Talvez estivesse às voltas com a promoção de Vergílio
Ferreira e seu bem sucedido livro A Aparição. Foi o grande sucesso deste 1959
tão sofrido para Antônio. Em seu íntimo, esperava ter o mesmo tratamento na
editora. Para ler este e outros contos de Paul Richard Ugo, clique aqui! CLIQUE E COMPRE SEU EXEMPLAR AGORA!
“Às vezes creio que personifico o inconsciente obscuro da raça humana. Sei que soa mal porém me encanta...” Vincent Price
quinta-feira, 3 de julho de 2014
quarta-feira, 30 de abril de 2014
MORTE BARATA
Depois de um dia cansativo de trabalho, daqueles que você
preferia ter morrido a ter que enfrentar problemas sem soluções aparentes,
chegar em casa poderia ser um descanso. Cortinas fechadas, a casa às escuras, a
solidão como companhia. Corro ao pequeno bar sobre uma mesa improvisada, na
qual repousam diversas garrafas de bebidas. Olhar para elas era o mesmo que
olhar para as prostitutas do Bunnie Ranch. As garrafas se ofereciam cada qual
com sua potência alcoólica. Escolhi um Bourbon, para variar um pouco da vodka.
Sabia que o Bourbon não me caía bem, me trazendo uma ressaca forte no dia
seguinte. Mas para que se importar com a ressaca se na verdade eu queria mesmo
que o dia acabasse para sempre naquela garrafa? Meu estômago clamava por comida
mas achei prudente não saciá-lo para que o álcool chegasse mais rápido em
minhas veias. O primeiro copo desceu rápido, imediatamente provocando um torpor
na minha fronte. Tentei chegar até a cozinha para pegar umas pedras de gelo
para o próximo copo. Fazia calor e o álcool já começava a fazer com que gotas
de suor escorressem por minhas costas. Enchi o copo com gelo e completei com o Bourbon.
Era um Evan Willians Black, que ganhei de um vendedor de Kentucky. Lembro ainda
quando ele me disse: _ Quando você for “matar” a garrafa, lembre-se de seu
amigo aqui que conta com seu próximo pedido!” Matar a garrafa... o que eu
queria naquele momento era que ela me matasse. A segunda dose desceu mais
devagar. Eu já estava tonto, e pronto para uma nova dose. Copo long drink
cheio! Terceira dose e, sentado na poltrona, rindo de minhas desgraças e de
meus problemas, pude ver uma barata, daquelas que aparecem nas noites quentes
de verão, caminhando, no chão, em minha direção. Sóbrio já teria partido para matá-la,
assustado como ficamos todos ao vermos este asqueroso inseto. Porém, deixei ela
seguir o seu caminho. Chegando próximo de meus pés, ela parou. Suas longas
antenas ficaram estáticas e pude ouvir claramente sua voz: _Douglas! Douglas! LEIA ESTE E OUTROS CONTOS CLICANDO AQUI!
terça-feira, 18 de março de 2014
DONA LUA
Ilustração:
Dil Marcio
Dona
Lua.
E
|
ra uma vez, numa
cidadezinha na serra, uma mulher que vivia sozinha e que estava sempre no mundo
da lua. Ninguém sabia de onde ela tinha vindo. Apareceu na casa do finado Seu
Leônidas, muito tempo depois dele ter ido desta para melhor. Seu Leônidas era
um homem misterioso, que não falava com ninguém. Nasceu e cresceu junto com a
cidade mas ninguém sabia da vida dele. Não tinha família, não tinha emprego,
não tinha ninguém. A casa em que vivia foi construída por ele e levou anos para
ficar pronta. Depois que morreu, do que, ninguém sabe, a casa ficou abandonada
durante muitos anos. Até que a mulher apareceu. Diziam que era filha de Seu
Leônidas. Outros diziam que era sobrinha. Outros, mais fofoqueiros, diziam que
era sua amante, que vivia em outro lugar. Dona Bianca, este era o nome dela,
passava os dias na varanda da casa, bordando um pano comprido, sem parar. Ia
até a venda da cidade para comprar linha e alimentos. Outra vezes, podia-se ver
Dona Bianca cuidando das plantinhas que ficavam na frente da casa.
Quando Dona Bianca
andava pela rua, os mais velhos ainda tentavam um “bom dia, boa tarde, boa
noite” mas Dona Bianca não falava com ninguém. Só com seu Elias, dono da venda,
que, depois de algum tempo, já deixava separada a compra de Dona Bianca para
evitar falar com ela. PARA CONTINUAR, CLIQUE AQUI E COMPRE SEU LIVRO!
domingo, 16 de março de 2014
A BRINCADEIRA DO COPO.
Quem nunca ouviu falar sobre tábua ouija ou na chamada “brincadeira
do copo”? Em minha juventude, por várias vezes reunia amigos para tentar falar
com espíritos usando precários pedaços de papel cortados com as letras do
alfabeto, e as palavras sim e não dispostas num círculo em volta de um copo de
vidro, quase sempre de extrato de tomate, geleia ou requeijão. A verdadeira tábua Ouija era peça impossível de ser encontrada. Lembro de uma antiga livraria no Centro do Rio de Janeiro, mais precisamente no Edifício Avenida Central, que tinha várias à venda em suas vitrines. Lindas e caras peças.
Fazer a brincadeira do copo era um momento
quando tentávamos ser solenes, por entre risos nervosos e rezas tais como o Pai
Nosso e a Ave Maria. Dávamos as mãos e rezávamos. Em seguida, virávamos o copo
com a boca para baixo e, com os dedos sobre ele, fazíamos a esperada pergunta:
_Tem alguém aí? A pergunta era repetida até que conseguíssemos fazer com que o
copo fosse na direção da palavra sim. Quando isso acontecia, os olhares
nervosos de todos ficavam fascinados. Afinal, o contato com o misterioso mundo
espiritual estava aberto. As perguntas, por conta de nossa infante imaturidade,
eram as mais tolas, tais como: _Você é homem? Mulher? De que país? – tentando criar
um perfil do possível espírito. Nunca pude constatar algo que me indicasse total
veracidade nos movimentos do copo. Como os dedos estavam sempre sobre ele,
poderia haver uma inconsciente pressão exercida por algum participante, em
busca de respostas às perguntas feitas. Mas, uma coisa posso afirmar: todas as vezes
que ousei “brincar” desta maneira, o copo se movimentava com certo vigor,
respondendo às perguntas feitas. Porém, nunca houve qualquer fenômeno durante
ou depois de nossas sessões de contato espiritual. Ainda assim, ao final da “brincadeira”,
levantávamos o copo, soprávamos, um de cada vez o seu interior e rezávamos
juntos. Depois, quebrávamos o copo pois ninguém queria leva-lo para casa.
sexta-feira, 7 de março de 2014
MEU APARTAMENTO ASSOMBRADO.
Rua Delgado de Carvalho. Fui criado nesta rua. Uma tranquila rua no bairro da Tijuca,
antes um bairro adorável, com gente alegre e famílias tradicionais. Depois de
casado, saí de lá para tentar a vida. Foi como sair da zona de conforto e
entrar num mundo feroz, de muita luta e poucos momentos de tranquilidade.
Depois de um tempo fora do Rio, trabalhando em São Paulo, recebi um convite irrecusável
para retornar ao Rio. O destino me levou novamente à mesma rua, que tinha um
apartamento ao lado do prédio onde cresci. Aluguei o apartamento do quarto
andar. Amplo, com uma enorme sala, e uma vista para as copas dos oitizeiros que
sombreavam a rua. Apenas um detalhe não nos deixava à vontade na janela. Por
estar ao nível da copas das árvores, as janelas estavam, também, ao nível do ninho
de um pequeno gavião que costumava atacar nossas cabeças indefesas.
O prédio era um antigo conhecido. Lembro de um colega de
colégio, o José, que morava no primeiro andar quando eu era criança. Filho de
pais velhos, tinha todos os brinquedos que nós crianças normais desejávamos
ter. Passei muitas horas de meus dias brincando em seu apartamento. Meu irmão
também namorou uma bela menina que lá viveu e que gostava quando eu usava meu
perfume preferido naquela época: Vitesse. No terceiro andar vivia uma rica
família (para os padrões da época) donos de uma empresa de ônibus cujos filhos
se divertiam em corridas de velozes karts nas pistas de Jacarepaguá. Mas, no
meu retorno ao bairro, agora como um membro do prédio que tantas surpresas me
provocou, agora era como uma fotografia desbotada. Dos antigos moradores,
somente a filha do rico empresário que, soube mais tarde, foi sócio do antigo
proprietário do apartamento que aluguei na construção do prédio, agora não tão
rica depois de perder os pais e as empresas.
O apartamento fora deste rico português, dono de vários
imóveis no subúrbio e de uma empresa de pneus e acessórios de automóveis,
comprada depois de anos por um rico senador da república que a transformou num
poderoso grupo com tentáculos corruptos em diversas áreas, terminando por ser
descoberto e arruinado política e profissionalmente. Ao separar-se de sua
esposa, rico, foi morar com uma jovem num famoso bairro da zona sul, deixando o
apartamento para a ex esposa depois da partilha dos bens feita no divórcio. A
quantidade de imóveis deste português era tamanha que ele possuía uma empresa
somente apara administrar seus bens. E este apartamento estava entre os imóveis
que ele administrava para sua ex esposa com quem mantinha uma cordial relação.
Após a separação, ela permaneceu no apartamento durante alguns anos, amasiando-se
com seu motorista que acabou assumindo o romance indo morar com ela no
confortável apartamento. Homem cuidadoso, adorava o imóvel e o mantinha sempre muito
bem cuidado. Não sei em que circunstâncias, este homem faleceu no apartamento,
levando a mulher e sua filha saírem de lá e irem morar no subúrbio, certamente
de onde saíra antes de enriquecer. Desta maneira, o apartamento ficou
disponibilizado para aluguel.
As informações que passei agora para o leitor que chegou até
aqui, só passou a ser de meu conhecimento após a série de eventos que vou
relatar em seguida.
Minha esposa tinha o hábito de, após levar as crianças ao
colégio, dar uma caminhada pelo bairro, como forma de exercitar-se. Tínhamos
uma faxineira que ia uma vez por semana limpar o apartamento. Certa vez, ao
chegar em casa, minha esposa encontrou esta pobre mulher no meio da cozinha, no
alto da escada de armar, almoçando assustada. Ao ser perguntada por que estava
ali, respondeu que, ao limpar a sala, olhou para o corredor do apartamento e
viu, claramente um homem sair de nosso quarto, atravessar o corredor não sem
antes olhar para ela, e entrar no quarto que era usado como escritório. Minha
mulher desconversou e, quando cheguei, comentou o assunto, um pouco descrente
sobre o que a faxineira havia relatado. O interessante é que esta nunca mais
voltou. Uns tempos depois, minha sobrinha veio passar uns dias de férias em
casa com minhas duas filhas. Após ficarem ela e minha filha mais velha,
assistindo TV até tarde, olharam para um grande espelho que ficava no fundo da
sala e avistaram uma figura, não muito clara, que as deixou assustadas. Esta
mesma filha mais velha, nunca, desde que mudamos para o apartamento, saía de
seu quarto sem passar correndo pela sala com medo de não se sabe o que.
Perguntávamos a ela e ela não sabia o motivo de tamanho medo em passar pela
sala. Certa vez, num verão tempestuoso, eu e minha esposa acordamos no meio da
noite com a forte chuva e o vento que fazia com que as copas das árvores
batessem nas janelas. Levantei lembrando que havia deixado as janelas da sala
abertas e fui até lá, caminhando às escuras como de costume. Fechei as janelas
que, abertas, faziam as brancas cortinas se lançarem contra as costas do sofá
do jardim de inverno. Ao virar para retornar ao quarto, olhei a sala iluminada
pelos postes de luz de mercúrio da rua e vi, sentado na poltrona da sala
principal, um homem. Ele olhava para mim com a segurança de quem estava
confortável ali. Parei, incrivelmente sem sentir medo algum, e olhei firme para
a imagem que, imediatamente se dissipou como areia ao vento. Fui até o quarto e
chamei minha esposa para tomar um chá, já que o fato havia retirado de mim todo
o sono. Enquanto servia a xícara com água quente na mesa da copa, minha esposa
disse que, após eu sair do quarto, teve a certeza de ter visto um homem junto à
porta de nosso quarto, enquanto eu estava na sala fechando as janelas. Respondi
de maneira bem humorada, que este homem estava, na verdade, sentado no sofá da sala. Calados, voltamos para o quarto, tentando dormir como se houvéssemos tido
um estranho sonho partilhado.
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