“Às vezes creio que personifico o inconsciente obscuro da raça humana. Sei que soa mal porém me encanta...” Vincent Price
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
PEQUENO CONTO DA LOWER EAST SIDE
Ernesto Alcaraz não sabia o que fazer. Acabara de ser
dispensado sem maiores explicações da banda que acompanhava o cantor Marvin
Gaye quando este vinha aos estúdios de gravação em Manhattan. Marvin havia
decretado falência ao separar-se da mulher pagando a ela uma fortuna em
indenizações, além de sofrer de depressão e usar drogas que o fizeram optar em
isolar-se num trailer no Havaí. Ernesto voltou para casa atordoado com o que
seria o seu futuro. O show business estava passando por um momento de crise e o
mundo caminhava para o caos financeiro. O moral do povo americano estava
abalado pela Guerra do Vietnam e o Oriente Médio usava o petróleo como arma
para pressionar países por seus apoios contra Israel. Nova York tentava se ver
livre da crise na segurança e nas finanças da cidade, dirigida pelo baixinho
Prefeito Abraham Beame. O trabalho como músico percursionista rendia a Ernesto
o suficiente para pagar o aluguel de seu pequeno apartamento num cortiço na Orchard
Street, que dividia com Tony, um pequeno traficante de heroína que “trabalhava”
durante a madrugada e Ron, um ator de filmes pornográficos, produzidos em
super-8 e vendidos nas lojas de artigos x-rated. Ernesto estava juntando
dinheiro para alugar um apartamento melhor e trazer sua esposa de Porto Rico e
a turnê que estava quase contratada pela Tamla Motown, iria render um bom
dinheiro. Com o fim dos projetos de Marvin, Ernesto viu seus planos se
desfazerem. O mercado discográfico estava agora se voltando para o fenômeno da
Disco Music e Ernesto não tinha muitos conhecimentos nesta nova “roda”
profissional. No Lower East Side, conhecido pelos latinos como Loisaida (Lower
East Side lido rapidamente com sotaque latino), Ernesto era um dos organizadores
do The Loisaida Festival, um dia inteiro dedicado a festas pelas ruas do
bairro, celebrando os imigrantes que se instalaram por lá numa onda iniciada
pelos judeus no final do século XIX. Estes imigrantes eram em sua grande
maioria, latinos. E dentre estes, a maioria era de porto-riquenhos. Todos os
anos, Ernesto e seus amigos organizavam um pequeno desfile e barracas eram
montadas para a venda de comidas típicas. Num pequeno palco, Ernesto se
apresentava com outros amigos, tocando e cantando bombas, plenas e trovas,
ritmos típicos de Porto Rico. Ao final, quando todos já estavam embriagados,
ainda podiam-se ouvir umas parrandas sendo tocadas nos cortiços, varando a
madrugada. Pablo, seu amigo e também organizador do festival, encontrou Ernesto
a caminho de casa, andando como um zumbi sem expressão: _O que passa, homem?
Está pálido? Lembre-se que amanhã começa nosso festival e hoje à noite vamos
ensaiar nossas bombas! – o desespero de Ernesto fez com que ele sequer
prestasse atenção em Pablo, que ficou furioso e saiu blasfemando: _ Cabrón,
pelotudo, músico de mierda! – Uma única esperança urgia na cabeça de Ernesto:
visitar Mamá Yaya Kimbisa – a sacerdotisa Palo Monte Mayambo. Só via nela uma
solução para seu desespero. Tinha certeza de que tudo isso era por conta de não
ter terminado seu trabalho de iniciação. Ernesto subiu as escadas do antigo
prédio e chegou até o andar onde Mamá Yaya Kimbisa atendia. A porta foi aberta
por uma auxiliar, vestida com suas roupas africanas. O ambiente era escuro e o
cheiro de incenso era muito forte. Antes de ser anunciado, Mamá Yayá gritou lá
do fundo do enevoado apartamento, cheio de velas, amuletos, oferendas e
estátuas de madeira: _Ernesto! Eu estava te esperando, meu filho! – Assustado,
Ernesto foi até o pequeno quarto que funcionava como santuário. Mamá Yaya
estava sentada em seu trono, cercada de flores, velas, santos, crucifixos,
esqueletos humanos, chapéus, fitas, bengalas, chifres, tridentes dentre outras
coisas usadas nos rituais. _Se ajoelha, meu filho. Não temos muito tempo – disse
ela entre os dentes que de tão cerrados, quase cortavam a ponta de um enorme
charuto. _você – continuou ela – não terminou a Kimba, e deixou as coisas
soltas à sua volta. Para ser Ngangulero, tem que ir até o fim senão os Mpungos
não vão te proteger. Você já está rayado. Agora tem que terminar para ter sua
prenda. Neste momento, Ernesto jogou seu corpo para trás numa inacreditável
contração. Suas mãos foram para suas costas, contraídas em forma de garras.
Ernesto incorporou uma entidade que deixou Mamá Yaya assustada. Era um Mpungo
Sete Raios como ela nunca vira antes. Uma forte gargalhada anunciou sua
presença. Ernesto incorporado por Sete Raios, com os olhos revirados falou com
sua característica voz rouca: _ Este cavalo está cheio de problemas! Mas Yayá
pergunta se ele quer fama, sucesso e dinheiro. Se ele disser que sim, diz que
isso vai custar caro. Vou querer um sacrifício muito grande. _Dito isso, Sete
Raios soltou outra sonora gargalhada deixando Ernesto caído no chão, desfalecido.
Pablo e seus amigos já não acreditavam que Ernesto viria
para o show. Como não esteve no ensaio, certamente não iria animar o festival.
Porém, alegre e confiante Ernesto subiu ao palco como se nada tivesse
acontecido e apresentou-se com uma performance que impressionou a todos. Sua
participação fez com que o público gritasse e aplaudisse pedindo bis. Na manhã
seguinte, o telefone tocou incessantemente, acordando Ernesto e aborrecendo
Tony que acabara de chegar de mais uma noitada de venda de drogas e tentava
dormir. Atendeu com sua voz sonolenta. Era Berry Gordy Jr., o todo-poderoso da
Tamla-Motown oferecendo um belo contrato como percursionista da gravadora.
Disse que havia estado de passagem no festival na noite anterior e ficou
impressionado com o desempenho de Ernesto. Deixou até escapar de que poderia
investir na carreira solo por conta de seu estilo e o fato de ser um latino.
Desligou o telefone após marcar uma reunião no mesmo dia no The New Yorker
Hotel. Ernesto não pode conter sua alegria, e pulava gritando que sua sorte
estava mudando, sacudindo Tony que tentava dormir em vão. O telefone tocou mais
uma vez interrompendo seu entusiasmo. Era Pablo, irmão de Ernesto ligando de
Porto Rico com a notícia de que Rosário, sua esposa, havia acabado de morrer de
um mal súbito.
Depois disso, após alguns anos, vários Grammys estavam
expostos nas prateleiras de Ernesto em sua casa de Beverly Hills. Este e outros 21 contos você encontra neste link. CLIQUE AQUI!
domingo, 26 de outubro de 2014
AS VIDAS DE CHARLES
Charles
Boyle sentou-se para tomar seu café da manhã, ainda com sono por mais uma noite
mal dormida. Olhou para a xícara, ainda vazia e dirigiu o olhar para sua
esposa, que já estava quase no final de seu desjejum. _ O café está lá, na
garrafa em cima da bancada da pia! – disse ela com sua voz rouca e áspera,
comum nas mulheres fumantes, cansadas da vida simples, limitada e sem
perspectivas. Charles não se lembrava de quando esta frase começou a ser dita
todos os dias mas mesmo já esperando ouvi-la, tentava em vão, mostrar a sua
amarga esposa que ele gostaria que ela voltasse a servir o café para ele. _Não
dormiu direito outra vez? – perguntou ela com seus cabelos sujos e despenteados
e sua camisola de ban-lon rota na gola.
_Não.
Faz tempo que não sei o que é dormir bem. Acho que estou ficando velho. Dizem
até que quem não dorme bem acaba morrendo mais cedo. Talvez seja melhor assim.
Sabe se a minha roupa que lavei ontem já secou? – perguntou ele.
_Com
esta chuva fina? Acho que não. Se estiver úmida, você seca no ferro de passar.
– disse ela levantando-se e indo até a pequena sala ligar a televisão e assistir
ao programa de receitas e artesanatos.
Charles
levantou-se e juntou as xícaras, facas e colheres e procurou um lugar na pia,
ainda cheia com a louça da noite anterior. Começou a lavar toda a louça pois
não suportava a ideia de chegar em casa à noite e encontrar mais louça a ser
lavada. E Margareth sabia disso e deixava ele lavar. Charles contou até três
para ouvir outra frase rotineira:_ Deixa aí que eu lavo mais tarde! Como
Margareth havia antecipado, as roupas de Charles ainda estavam úmidas e com aquele
cheiro característico de sabão em pó. Secou-as à ferro com cuidado,
abstraindo-se do mundo real enquanto deixava liso o tecido rugoso de suas
roupas úmidas.
No caminho até sua pequena loja de antiguidades,
foi mais uma vez pensando no sonho da noite anterior. O que antes parecia ser
como pequenos flashes a uns anos atrás era agora real. Ficava impressionado com
a clareza de sua memória ao lembrar-se de cada detalhe. Era como se assistisse
a um seriado de TV todas as noites. Cada noite um capítulo. Fazia frio naquela
manhã de outono na pequena Lismore, no Condado de Waterford. De sua casa na
Station Road até a Main Street onde ficava o antiquário, eram apenas 18 minutos
de caminhada. A loja ficava ao lado do simpático The Rustic Café onde todos os
dias tomava o tradicional chá no meio da tarde, hábito que adquiriu com seu
avô. Evitava almoçar fora, e sempre levava consigo uma pequena marmita que
aquecia na pequena cozinha nos fundos da loja. Mas às vezes, quando recebia
algum comprador que necessitasse de um pouco mais de atenção para poder fechar
um bom negócio ou algum marchand de obras de arte, almoçava no The Castle Lodge
Restaurant bem em frente. E tinha boas razões para isso. Ao chegar todos os
dias, encontrava a loja sempre limpa e arrumada, com as portas já abertas por
seu funcionário Ronan que trabalhava a muitos e muitos anos com a família de
Charles. Ronan vivia num pequeno apartamento aos fundos da loja, com apenas um
quarto, sala, banheiro e uma pequena cozinha. Tinha problemas mentais, quase não
falava, não tinha estudado e fora renegado por sua família por conta de sua
deficiência. Mas Charles não sabia quando estes fatos aconteceram. O pai de
Charles seguiu o caminho seu avô, permanecendo com Ronan. Depois da morte do
pai de Charles, Ronan continuou a trabalhar na loja, servindo agora CLIQUE E COMPRE SEU LIVRO AGORA!
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
A PELE.
Fazia mais de uma semana que Malcon não saia de casa. Depois daquela festa, sua alma parecia não ter mais vitalidade. Morava sozinho e não queria saber se era dia ou noite. Mantinha as pesadas cortinas fechadas. Os únicos barulhos que se ouviam eram do grande relógio carrilhão centenário, dos pingos d’água da pia do lavabo e, vez ou outra, de alguma carruagem que passava por ali, talvez de vendedores de leite ou lenha que, vendo a casa fechada, seguiam sem ao menos pararem. Sua aparência era horrível. Nem parecia o vistoso Malcon que impressionava por sua inteligência e presença nos melhores lugares da cidade. Estava muito abatido, com a barba já crescida nestes sete dias sem ao menos tomar banho. Cabelos sujos engordurados mantinha seu corpo envolto em um robe de chambre, sentado na sala de estar. Já não sabia quantas garrafas de absinto havia bebido. Mantinha-se bêbado pois assim estaria fora da realidade que o abatera. A casa estava toda fora de ordem, com restos de comida por todos os lugares, móveis fora do lugar, peças de decoração quebradas em cacos que se misturavam aos de garrafas lançadas contra as paredes. As velas dos candelabros estavam terminando. Para ele, pouco importava. Queria mesmo que sua vida terminasse quando a última chama se apagasse naturalmente.PARA CONTINUAR A LER ESTE E OUTROS CONTOS, CLIQUE AQUI.
O TÚNEL.
A última parada para descansar e comer alguma coisa tinha sido a quase uma hora antes. O efeito do café forte já estava passando e o sono chegava com força aos olhos de Donald. Até Cumberland, levaria mais uma hora e meia. Mas desta vez não teve como recusar o encontro com Mr. Terence. Deste a morte de sua esposa, Mr. Terence queria se desfazer de algumas peças antigas que tanto ela gostava e que ele achava um exagero. E Donald foi quem vendeu grande parte da coleção de porcelanas e quadros para Ms. Sharon, que visitava regularmente sua loja na Antique Row em Baltimore. Mr. Terence era um homem rico, elegante e excêntrico. De origem inglesa, mantinha as tradições e hábitos adquiridos ainda jovem quando vivia em Rochester, pequena cidade a cerca de 27 milhas de Londres. Donald já havia estado em Cumberland uma vez, quando Ms. Sharon abriu as portas do rancho próximo ao Chesapeak and Ohio Canal Park na Brice Rollow Road. O casal promoveu uma mostra de sua coleção de obras de arte e doou 5 telas para um leilão de caridade, revertendo a renda para a St. Peter’s Catholic Church, em Paw Paw. Na Inglaterra, frequentavam a St. Peter’s Prince of the Apostles Roman em Gillinghan, a apenas 2 milhas de distância. Foi lá que Mr. Terence conheceu sua esposa na escola dominical, onde ajudavam nas atividades da paróquia. Ms. Sharon continuou a sua rotina depois que mudaram para os Estados Unidos mas Mr. Terence se afastou da igreja com a chegada da velhice. Era um leitor quase compulsivo e tinha se dedicado a estudos de religiões antigas. O casal tinha discussões frequentes por conta do distanciamento de Terence da igreja. Ele começou a investigar a história de uma seita trazida pelos operários vindos de Hunsrück – Alemanha, contratados pela C&O, empresa encarregada pela construção do Canal Paw Paw Tunnel, que fazia parte da rede de canais que desviavam parte das águas do Rio Potomak, irrigando áreas agrícolas. CLIQUE AQUI PARA COMPRAR SEU EXEMPLAR AGORA!
O DÉCIMO TERCEIRO.

Clarence era o décimo terceiro filho. Exceto por sua mãe ter morrido em seu parto, não tinha até então, sofrido nada além das piadas sem graça à cerca de ter sido o filho número treze de John e Sylvia Smith. Coincidência ou não, seu pai morreu misteriosamente quando Clarence completou treze anos. De forma trágica porém comum entre os lenhadores de Hayward. John bebia muito e estava sempre envolvido em brigas que segundo alguns, acabaram resultando em sua morte. Até hoje o algoz que o matou não foi encontrado. Seu corpo foi cortado em 13 pedaços com seu próprio pesado e afiado machado American Felling Axe com cabeça de 4 libras feita em aço 5160 e cabo de nogueira de Appalachia. De forma bizarra, mantinham até hoje o machado de John na parede sobre a lareira da sala principal da casa, da mesma forma como fora encontrado, ao lado de uma dezena de troféus ganhos durante várias décadas no Lumberjack World Championships que acontece desde 1960 em Hayward. O sustento do rancho ficou por conta dos irmãos mais velhos que seguiram, os homens, o caminho do pai. CLIQUE AQUI PARA COMPRAR SEU EXEMPLAR AGORA!
O GATO.
O
Implacável despertador do celular tocou. O sol demoraria muito a aparecer mesmo
faltando 20 dias para o início do inverno. Parecia não acreditar que teria que
sair da cama que, naquele momento, parecia perfeitamente acomodada ao seu
corpo. “– Quem merece ser despertado no melhor de seu sono”? – resmungou. Sua
ida até o banheiro foi claudicante. Seus pés doíam a cada passo. Já havia
passado dos 50 anos e lembrou da frase popular: “O dia que você se levantar da
cama e não sentir dor nenhuma é porque está morto”. Peter sempre procurava
trilhar seus pensamentos com temperos de bom humor. Uma vez por semana a cena
se repetia. Todas as quartas-feiras tinha que ir até Baltimore dar aula de
Marketing em um curso de MBA na Johns Hopkins University.
A cafeteira elétrica, programada no dia anterior
soava seu bip-bip. O café estava pronto. Todo o ritual de se arrumar, tomar o
café, conferir seu material de aula e sair, levava cerca de uma hora. Às 4
horas já estava sentado em seu carro, logo após ter passado um pano nos vidros
e espelhos molhados pelo frio orvalho da madrugada. Peter sempre foi um
motorista cauteloso e preocupado com segurança. Saiu pelas ruas desertas e
silenciosas de seu bairro. Parecia que o sol levaria mais tempo para clarear o
céu pois uma fina chuva começava a cair. Logo alcançou a estrada estreita que o
levaria até a rodovia principal. Apesar de ser uma estrada mal conservada e de
apenas uma pista de mão dupla, o movimento durante o dia era intenso por conta
do crescimento da pequena cidade, passagem quase que obrigatória para um novo
complexo industrial que se instalara a poucos quilômetros de onde Peter fora
morar, fugindo das mazelas das grandes cidades. Este súbito crescimento da
pequena cidade já começava a incomodá-lo. Ligou o rádio do carro buscando a
estação de notícias que sempre ouvia para saber as condições do tráfego.
Escolheria o melhor trajeto de acordo com as informações, mesmo sabendo que
àquela hora nenhuma informação consistente seria dada, pois o helicóptero da
emissora não sairia com esta nebulosidade. Nem tampouco a esta hora da
madrugada.CLIQUE AQUI E COMPRE SEU EXEMPLAR AGORA
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