domingo, 29 de março de 2015

Olho no Olho

Olho o olho que me olha no espelho. O meu olho. Tento ver dentro dele aquilo que não vejo sem vê-lo no espelho. Não consigo achar nada no olhar nem dentro do olho. Mas ele me olha e acho que vê mais do que vejo. Ele, aquele que vejo no espelho, vê aquilo que os outros veem e que eu não consigo ver. Mas, o que me importa? Tentar descobrir algo dentro daquele olho ou deixar que o olhar que agora me olha não me diga nada além daquilo que nunca descobrirei?

domingo, 15 de março de 2015

Pensamento.

Acho que o que acho, nunca ninguém achará. Às vezes acho que o que acham do que eu acho, já foi achado. Mas, acho que não.
Paul Richard Ugo.

segunda-feira, 2 de março de 2015

LAST DANCE


Acordei com o gosto amargo do Bourbon ainda presente na saliva encorpada, tentando com apenas um dos olhos entreabertos, ver por entre as grossas cortinas, se o sol já começou a subir no horizonte. Não. Ainda era noite. As velas do candelabro ainda acesas, deram seus estalidos finais. O silêncio do frio e da neve gelaram meus ossos. Impossível levantar. A cabeça pesava mais que o planeta e o pequeno quarto girava em seu eixo. A cefaleia lancinante chegava a adormecer minhas têmporas. Virei de lado e encarei os lindos olhos verdes arregalados na minha direção. Observei que estavam um pouco embaçados, frios e vazios. Quem seria esta mulher deitada ao meu lado? Jovem de pele clara, percebi um filete de sangue ressecado sobre sua testa. A boca de lábios tenros que se mostravam azulados, estava aberta como que querendo soltar uma palavra. Com dificuldade, percebi seu corpo coberto por um lindo vestido de noite. Em seu pescoço longo, percebi marcas arroxeadas. Senti arder o meu rosto e ao tocá-lo encontrei com o tato de meus frios dedos, profundos arranhões que agora ardiam como brasa. Tentei me sentar na cama, sem entender o que aconteceu e vi garrafas quebradas pelo chão. Por entre os cacos, um pedaço de papel me chamou a atenção. Abaixei para apanhá-lo e caí sobre os cacos, desequilibrado pela tonteira. Mesmo sofrendo alguns cortes, me esforcei para levantar e tentar ler, ao mesmo tempo que tentei conferir se estava realmente no quarto de minha casa. Segurei numa das gavetas da cômoda e me apoiei para ficar de pé. A mão puxou o pano brocado que decorava a cômoda que fazendo o candelabro cair com sua cera quente sobre o meu rosto. O fogo se espalhou rápido por entre os cacos das garrafas de Bourbon que ainda ensopavam os tapetes aos pés da cama. Com a luz do fogo alto, pude ler o papel que agora se punha em chamas: Reisenweber’s Café – Columbus Circle, 58th Street and 8th Avenue, Manhattan. Antes que a fumaça me envolvesse totalmente até a morte, lembrei de Dora, a dançarina. Sim, era ela a quem tanto desejei. Por que matei-a? Antes da resposta, a morte me alcançou.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

VOLTA ÀS RAÍZES

Vou a Portugal como quem ansioso caminha
Trilhar às avessas o mesmo curso que fez Pero Vaz
Pousarei em terra alfacinha
Capital da nação de um povo audaz.

Quero saudar o túmulo de Cabral
Homem bravo e “bestial”!

Tal qual Gusmão em sua passarola
Verei do alto o mar já tantas vezes navegado
Onde jazem bravos navegantes
E o estuário do Tejo ao som do fado
Me lembrará Camões e as aventuras gigantes

Ah, D. Manuel!
Criador de Portugal
Beijaria seu imperial anel
Reverenciando a coragem sem igual

E gritaria para sua corte
Povo luso bravo e forte!
Sereis imortais por todo o mundo
Que ainda treme com seus contos lendários
Marcando na pedra em profundo
A gloriosa história dos Templários.

Tens sua marca nos quatro cantos
Ásia, América, África e Europa
Muitos lhe causaram alguns quebrantos
Mas isto é coisa de outrora

Quisera tivéssemos no Brasil
Em sua insossa história juvenil
Bravos guerreiros com louvor
Tais como D. Gonçalo O Lidador

Voltarei no tempo criadouro
De uma nação brasileira
Que costas voltou ao antigo feudo mouro
Acabando de vez na algibeira.

Ao chegar a este mágico local
Humildemente me curvarei
Diante de tu ó Portugal
Por meus antepassados chorarei.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

PEQUENO CONTO DA LOWER EAST SIDE



Ernesto Alcaraz não sabia o que fazer. Acabara de ser dispensado sem maiores explicações da banda que acompanhava o cantor Marvin Gaye quando este vinha aos estúdios de gravação em Manhattan. Marvin havia decretado falência ao separar-se da mulher pagando a ela uma fortuna em indenizações, além de sofrer de depressão e usar drogas que o fizeram optar em isolar-se num trailer no Havaí. Ernesto voltou para casa atordoado com o que seria o seu futuro. O show business estava passando por um momento de crise e o mundo caminhava para o caos financeiro. O moral do povo americano estava abalado pela Guerra do Vietnam e o Oriente Médio usava o petróleo como arma para pressionar países por seus apoios contra Israel. Nova York tentava se ver livre da crise na segurança e nas finanças da cidade, dirigida pelo baixinho Prefeito Abraham Beame. O trabalho como músico percursionista rendia a Ernesto o suficiente para pagar o aluguel de seu pequeno apartamento num cortiço na Orchard Street, que dividia com Tony, um pequeno traficante de heroína que “trabalhava” durante a madrugada e Ron, um ator de filmes pornográficos, produzidos em super-8 e vendidos nas lojas de artigos x-rated. Ernesto estava juntando dinheiro para alugar um apartamento melhor e trazer sua esposa de Porto Rico e a turnê que estava quase contratada pela Tamla Motown, iria render um bom dinheiro. Com o fim dos projetos de Marvin, Ernesto viu seus planos se desfazerem. O mercado discográfico estava agora se voltando para o fenômeno da Disco Music e Ernesto não tinha muitos conhecimentos nesta nova “roda” profissional. No Lower East Side, conhecido pelos latinos como Loisaida (Lower East Side lido rapidamente com sotaque latino), Ernesto era um dos organizadores do The Loisaida Festival, um dia inteiro dedicado a festas pelas ruas do bairro, celebrando os imigrantes que se instalaram por lá numa onda iniciada pelos judeus no final do século XIX. Estes imigrantes eram em sua grande maioria, latinos. E dentre estes, a maioria era de porto-riquenhos. Todos os anos, Ernesto e seus amigos organizavam um pequeno desfile e barracas eram montadas para a venda de comidas típicas. Num pequeno palco, Ernesto se apresentava com outros amigos, tocando e cantando bombas, plenas e trovas, ritmos típicos de Porto Rico. Ao final, quando todos já estavam embriagados, ainda podiam-se ouvir umas parrandas sendo tocadas nos cortiços, varando a madrugada. Pablo, seu amigo e também organizador do festival, encontrou Ernesto a caminho de casa, andando como um zumbi sem expressão: _O que passa, homem? Está pálido? Lembre-se que amanhã começa nosso festival e hoje à noite vamos ensaiar nossas bombas! – o desespero de Ernesto fez com que ele sequer prestasse atenção em Pablo, que ficou furioso e saiu blasfemando: _ Cabrón, pelotudo, músico de mierda! – Uma única esperança urgia na cabeça de Ernesto: visitar Mamá Yaya Kimbisa – a sacerdotisa Palo Monte Mayambo. Só via nela uma solução para seu desespero. Tinha certeza de que tudo isso era por conta de não ter terminado seu trabalho de iniciação. Ernesto subiu as escadas do antigo prédio e chegou até o andar onde Mamá Yaya Kimbisa atendia. A porta foi aberta por uma auxiliar, vestida com suas roupas africanas. O ambiente era escuro e o cheiro de incenso era muito forte. Antes de ser anunciado, Mamá Yayá gritou lá do fundo do enevoado apartamento, cheio de velas, amuletos, oferendas e estátuas de madeira: _Ernesto! Eu estava te esperando, meu filho! – Assustado, Ernesto foi até o pequeno quarto que funcionava como santuário. Mamá Yaya estava sentada em seu trono, cercada de flores, velas, santos, crucifixos, esqueletos humanos, chapéus, fitas, bengalas, chifres, tridentes dentre outras coisas usadas nos rituais. _Se ajoelha, meu filho. Não temos muito tempo – disse ela entre os dentes que de tão cerrados, quase cortavam a ponta de um enorme charuto. _você – continuou ela – não terminou a Kimba, e deixou as coisas soltas à sua volta. Para ser Ngangulero, tem que ir até o fim senão os Mpungos não vão te proteger. Você já está rayado. Agora tem que terminar para ter sua prenda. Neste momento, Ernesto jogou seu corpo para trás numa inacreditável contração. Suas mãos foram para suas costas, contraídas em forma de garras. Ernesto incorporou uma entidade que deixou Mamá Yaya assustada. Era um Mpungo Sete Raios como ela nunca vira antes. Uma forte gargalhada anunciou sua presença. Ernesto incorporado por Sete Raios, com os olhos revirados falou com sua característica voz rouca: _ Este cavalo está cheio de problemas! Mas Yayá pergunta se ele quer fama, sucesso e dinheiro. Se ele disser que sim, diz que isso vai custar caro. Vou querer um sacrifício muito grande. _Dito isso, Sete Raios soltou outra sonora gargalhada deixando Ernesto caído no chão, desfalecido.
Pablo e seus amigos já não acreditavam que Ernesto viria para o show. Como não esteve no ensaio, certamente não iria animar o festival. Porém, alegre e confiante Ernesto subiu ao palco como se nada tivesse acontecido e apresentou-se com uma performance que impressionou a todos. Sua participação fez com que o público gritasse e aplaudisse pedindo bis. Na manhã seguinte, o telefone tocou incessantemente, acordando Ernesto e aborrecendo Tony que acabara de chegar de mais uma noitada de venda de drogas e tentava dormir. Atendeu com sua voz sonolenta. Era Berry Gordy Jr., o todo-poderoso da Tamla-Motown oferecendo um belo contrato como percursionista da gravadora. Disse que havia estado de passagem no festival na noite anterior e ficou impressionado com o desempenho de Ernesto. Deixou até escapar de que poderia investir na carreira solo por conta de seu estilo e o fato de ser um latino. Desligou o telefone após marcar uma reunião no mesmo dia no The New Yorker Hotel. Ernesto não pode conter sua alegria, e pulava gritando que sua sorte estava mudando, sacudindo Tony que tentava dormir em vão. O telefone tocou mais uma vez interrompendo seu entusiasmo. Era Pablo, irmão de Ernesto ligando de Porto Rico com a notícia de que Rosário, sua esposa, havia acabado de morrer de um mal súbito.

Depois disso, após alguns anos, vários Grammys estavam expostos nas prateleiras de Ernesto em sua casa de Beverly Hills. Este e outros 21 contos você encontra neste link. CLIQUE AQUI!

domingo, 26 de outubro de 2014

AS VIDAS DE CHARLES

Charles Boyle sentou-se para tomar seu café da manhã, ainda com sono por mais uma noite mal dormida. Olhou para a xícara, ainda vazia e dirigiu o olhar para sua esposa, que já estava quase no final de seu desjejum. _ O café está lá, na garrafa em cima da bancada da pia! – disse ela com sua voz rouca e áspera, comum nas mulheres fumantes, cansadas da vida simples, limitada e sem perspectivas. Charles não se lembrava de quando esta frase começou a ser dita todos os dias mas mesmo já esperando ouvi-la, tentava em vão, mostrar a sua amarga esposa que ele gostaria que ela voltasse a servir o café para ele. _Não dormiu direito outra vez? – perguntou ela com seus cabelos sujos e despenteados e sua camisola de ban-lon rota na gola.
_Não. Faz tempo que não sei o que é dormir bem. Acho que estou ficando velho. Dizem até que quem não dorme bem acaba morrendo mais cedo. Talvez seja melhor assim. Sabe se a minha roupa que lavei ontem já secou? – perguntou ele.
_Com esta chuva fina? Acho que não. Se estiver úmida, você seca no ferro de passar. – disse ela levantando-se e indo até a pequena sala ligar a televisão e assistir ao programa de receitas e artesanatos.
Charles levantou-se e juntou as xícaras, facas e colheres e procurou um lugar na pia, ainda cheia com a louça da noite anterior. Começou a lavar toda a louça pois não suportava a ideia de chegar em casa à noite e encontrar mais louça a ser lavada. E Margareth sabia disso e deixava ele lavar. Charles contou até três para ouvir outra frase rotineira:_ Deixa aí que eu lavo mais tarde! Como Margareth havia antecipado, as roupas de Charles ainda estavam úmidas e com aquele cheiro característico de sabão em pó. Secou-as à ferro com cuidado, abstraindo-se do mundo real enquanto deixava liso o tecido rugoso de suas roupas úmidas.
No caminho até sua pequena loja de antiguidades, foi mais uma vez pensando no sonho da noite anterior. O que antes parecia ser como pequenos flashes a uns anos atrás era agora real. Ficava impressionado com a clareza de sua memória ao lembrar-se de cada detalhe. Era como se assistisse a um seriado de TV todas as noites. Cada noite um capítulo. Fazia frio naquela manhã de outono na pequena Lismore, no Condado de Waterford. De sua casa na Station Road até a Main Street onde ficava o antiquário, eram apenas 18 minutos de caminhada. A loja ficava ao lado do simpático The Rustic Café onde todos os dias tomava o tradicional chá no meio da tarde, hábito que adquiriu com seu avô. Evitava almoçar fora, e sempre levava consigo uma pequena marmita que aquecia na pequena cozinha nos fundos da loja. Mas às vezes, quando recebia algum comprador que necessitasse de um pouco mais de atenção para poder fechar um bom negócio ou algum marchand de obras de arte, almoçava no The Castle Lodge Restaurant bem em frente. E tinha boas razões para isso. Ao chegar todos os dias, encontrava a loja sempre limpa e arrumada, com as portas já abertas por seu funcionário Ronan que trabalhava a muitos e muitos anos com a família de Charles. Ronan vivia num pequeno apartamento aos fundos da loja, com apenas um quarto, sala, banheiro e uma pequena cozinha. Tinha problemas mentais, quase não falava, não tinha estudado e fora renegado por sua família por conta de sua deficiência. Mas Charles não sabia quando estes fatos aconteceram. O pai de Charles seguiu o caminho seu avô, permanecendo com Ronan. Depois da morte do pai de Charles, Ronan continuou a trabalhar na loja, servindo agora CLIQUE E COMPRE SEU LIVRO AGORA!