domingo, 19 de abril de 2015

COISAS DE VIVER.


Durante toda a semana, anseio pela chegada do domingo. Trabalhar de segunda à sábado é cansativo. Só quem trabalha com este tipo de jornada, sabe do que estou falando. Enfim, ele chega! O domingo. E o sol vem com força, festejar este tão esperado dia. Descanso? Não! Dar banho nos cachorros, cortar a grama, lavar o carro, consertar o chuveiro, ajudar com a louça, arrumar o quarto de guardados, o famoso “quartinho”, e jogar fora tudo o que não serve mais. Não reparamos, mas fico surpreso de como guardamos coisas inúteis! Na verdade, esta última tarefa, a de arrumar o “quartinho” é a mais árdua. Você sempre acha que aquele pedaço de arame enferrujado, o ventilador quebrado, o rolo de pintura sujo, a lata de tinta com um “restinho”, dentre centenas de coisas velhas, vão servir para alguma coisa. Mas, impiedosamente recolho tudo fazendo a seguinte pergunta: _Quando foi a última vez que precisei usar estas coisas? Se mais de seis meses ou eu não lembro quando, o caminho é a lixeira. Assim foram, neste domingo de descanso, computadores queimados, caixas de som furadas, fios, lustres quebrados, televisores pifados, revistas velhas, livros de receitas, ventiladores sem pás, enfim, muita sucata, algumas até possíveis de serem recuperadas mas substituídas pela mágica da obsolescência que nos traz sempre novidades tecnológicas. Mas, uma coisa eu achei no fundo de um armário, coberto por uma fina camada de poeira e mofo: a minha caixa de recordações. Imediatamente, ao ver a caixa, lembrei-me de um grande amigo que, ironicamente não está presente dentro das recordações da caixa, mas que me ensinou muitas coisas sobre a vida, inclusive a importância de termos uma caixa (e ele tem a dele) com nossas “coisas de viver”. Ele fala sempre sobre um poema de Horacio Ferrer, musicado por Astor Piazzolla, ambos seus patrícios portenhos (a bem da verdade, Horacio era uruguaio e Astor nasceu em Mar del Plata. Mas ambos morreram em Buenos Aires), a “Balada para mi muerte”. Num trecho do belíssimo tango, pode-se ouvir o trecho:

 “Moriré em Buenos Aires, será de madrugada,
Guardaré mansamente las cosas de vivir,
Mi pequeña poesia de adioses y de balas,
Mi tabaco, mi tango, mi puñado de esplín,
Me pondré por los hombros, de abrigo, toda el alba,
Mi penúltimo whisky, quedará sin beber!”

Peguei a caixa e, dentro dela, encontrei tesouros daqueles que valem mais do que qualquer coisa material. Cada pedaço amarelado de papel, cada desenho, cada postal carta ou bilhete, que, na verdade não valem nada em sua materialidade, trazem a força mágica de nos transportar aos momentos felizes que vivemos no passado. A reencontrarmos a energia de pessoas que compartilharam momentos de nossa história de vida, num verdadeiro túnel do tempo. Nossas coisas de viver são incapazes de nos trazer de volta o tempo passado. Mas são capazes, com sua enorme força, de levar nossos espíritos a revisitar momentos felizes. Mais do que simples fotos, estes pedaços de papel surrados pelo tempo, rotos pelas traças, manchados pelo mofo, são a materialização das emoções que tivemos.
Ao colecionar estas preciosidades ainda jovem, imaginei que valeriam muito para mim. Agora, do alto de minha idade, fico feliz por ter preservado este tesouro. Podem, uns e outros, perguntarem o que isso importa na vida prática. Para estes eu respondo que as coisas de viver servem para que eu descubra quem fui e quem sou hoje. Servem para eu descobrir porque sou quem sou. Servem para que nunca esqueça das pessoas, mesmo as que não estão dentro da caixa, que forjaram minha vida com o que elas tinham de mais puro em suas almas. Para quem não tem sua caixa de “coisas de viver”, sempre há tempo. Ela é a materialização de nosso espírito enquanto ainda estamos por aqui. É a nossa arca da aliança com a vida.


Paul Richard Ugo.

AINDA É TEMPO DE MUDAR PARA MELHOR


Quanto tempo faz que você não ouve uma sinfonia clássica? Quando foi a última vez que visitou um museu para ver obras de arte? E livros? Quantos você leu no último ano? Teatro? Quantas peças assistiu? As respostas poderão ser inúmeras. Desde “não gosto de música clássica”, até “não tenho tempo para ler”. As artes não existem por acaso. Elas são a expressão máxima do intelecto humano, que exacerbam a realidade transmitindo ao espectador, alguma emoção. Ao termos contato com a arte, deixamos que nossas emoções provoquem um florescer de sentimentos que dão polimento à rudeza de nossas almas. Se não fossem tão importantes, não seriam cultuadas, disputadas e apreciadas como são. Em 2013, um quadro de Van Gogh, o Pôr do Sol em Montmajour foi descoberto pelo Museu que leva o mesmo nome do autor da obra. Toda a imprensa mundial deu destaque à descoberta e o museu estimou receber mais de um milhão e duzentas mil pessoas para vê-lo no ano seguinte.  As orquestras sinfônicas se esmeram cada vez mais nas produções de clássicos e óperas, o cinema de arte está em evidência, as artes agora saem dos museus e vão para as calçadas e para as comunidades. Emissoras de TV dedicam programação exclusivamente sobre arte nos canais pagos. As produções teatrais buscam mais tecnologias para impressionarem seus públicos e textos clássicos e do teatro grego são adaptados para a linguagem atual. Você tem acompanhado tudo isso? Se não, é bom começar. A arte tem a capacidade de mudar as pessoas tornando-as mais sensíveis, mais críticas e com maior capacidade de discernimento do que é bom e do que é ruim. A arte nos leva aos caminhos da busca pela harmonia, pelo convívio, pela generosidade, pelo respeito e pela educação. É como se fosse um condutor que nos leva a uma vida melhor, com mais qualidade. Mas, enquanto fecharmos os nossos olhos para as artes, nos permitindo absorver somente o que se produz de pior a nossa volta, de simples digestão e vazio de conteúdo construtivo, vamos continuar em uma espiral de degradação da nossa sociedade, continuar a eleger os piores para nos governar, vamos ser coniventes com a falta de civilidade, a falta de respeito, a agressão, a transgressão das leis e a violência. Basta comparar a quantidade de museus e os milhões que os freqüentam no chamado Primeiro Mundo. Serão Primeiro Mundo por acaso? Acho que não. Estamos nos desenvolvendo como cidadãos que sabem conviver numa sociedade organizada? Também acho que não. Mas acredito na transformação do ser humano pela arte e, consequentemente, pela educação. E esta transformação pode começar por cada um de nós. Basta nos entregarmos às artes, ao conhecimento, à cultura e à educação. Sem preconceitos, sem achar que isso é coisa de gente soberba ou que se acha superior. E se você chegou até o final de meu texto, fico feliz. Você é capaz de mudar. Agora, corra e compre um bom livro, visite um museu e tente, pelo menos tente, ouvir uma sinfonia clássica. Você só tem a ganhar.


Paul Richard Ugo.

domingo, 29 de março de 2015

Alma, alma, alma

Alma, alma, alma. O que somos sem nossas cascas. Alma, alma, alma. O éter que vaga pelas noites em busca de respostas. Alma, alma, alma. O que nos faz verter lágrimas quando a emoção nos atinge. Alma, alma, alma. Que nos dá a sensação do medo, da alegria, da tristeza. Alma, alma, alma. O que nos move em busca do que não conhecemos, levando-nos ao final cheios de pesados fardos para os quais não sabemos para que se prestam. Alma, alma, alma. Nos traz a dignidade e a vergonha. Nos dá a razão e a inconsistência. Alma, alma, alma, para que se alimenta de dores? Para que se alimenta de efêmeros prazeres? Para que experimenta diversos sentimentos? Alma, alma, alma, para que trazes para si outras almas que se encantam contigo, se decepcionam contigo, se apaixonam por ti e se desesperam por ti? Alma, alma, alma, para onde vai quando a carne se esvai na putrefata morte? Qual caminho segues com tudo aquilo que viveu? Alma, alma, alma, me responda antes que tome conta de mim e me carregue contigo pelas sendas do mistério. Alma, alma, alma, será que você volta? Será que não morre com meu corpo? Alma, alma, alma, que me pegou infante ainda no ventre e me carrega até hoje. Alma, alma, alma, que outras vidas viveu, que outros planetas percorreu. Alma, alma, alma. Será eterna? Quando será seu fim? Quando foi seu começo? Alma, alma, alma... será uma mentira? Uma invenção de conexões químicas do cérebro? Alma, alma, alma, me leve contigo em tua fantástica viagem pela eternidade, conhecendo o universo e a razão de tudo.

Olho no Olho

Olho o olho que me olha no espelho. O meu olho. Tento ver dentro dele aquilo que não vejo sem vê-lo no espelho. Não consigo achar nada no olhar nem dentro do olho. Mas ele me olha e acho que vê mais do que vejo. Ele, aquele que vejo no espelho, vê aquilo que os outros veem e que eu não consigo ver. Mas, o que me importa? Tentar descobrir algo dentro daquele olho ou deixar que o olhar que agora me olha não me diga nada além daquilo que nunca descobrirei?

domingo, 15 de março de 2015

Pensamento.

Acho que o que acho, nunca ninguém achará. Às vezes acho que o que acham do que eu acho, já foi achado. Mas, acho que não.
Paul Richard Ugo.

segunda-feira, 2 de março de 2015

LAST DANCE


Acordei com o gosto amargo do Bourbon ainda presente na saliva encorpada, tentando com apenas um dos olhos entreabertos, ver por entre as grossas cortinas, se o sol já começou a subir no horizonte. Não. Ainda era noite. As velas do candelabro ainda acesas, deram seus estalidos finais. O silêncio do frio e da neve gelaram meus ossos. Impossível levantar. A cabeça pesava mais que o planeta e o pequeno quarto girava em seu eixo. A cefaleia lancinante chegava a adormecer minhas têmporas. Virei de lado e encarei os lindos olhos verdes arregalados na minha direção. Observei que estavam um pouco embaçados, frios e vazios. Quem seria esta mulher deitada ao meu lado? Jovem de pele clara, percebi um filete de sangue ressecado sobre sua testa. A boca de lábios tenros que se mostravam azulados, estava aberta como que querendo soltar uma palavra. Com dificuldade, percebi seu corpo coberto por um lindo vestido de noite. Em seu pescoço longo, percebi marcas arroxeadas. Senti arder o meu rosto e ao tocá-lo encontrei com o tato de meus frios dedos, profundos arranhões que agora ardiam como brasa. Tentei me sentar na cama, sem entender o que aconteceu e vi garrafas quebradas pelo chão. Por entre os cacos, um pedaço de papel me chamou a atenção. Abaixei para apanhá-lo e caí sobre os cacos, desequilibrado pela tonteira. Mesmo sofrendo alguns cortes, me esforcei para levantar e tentar ler, ao mesmo tempo que tentei conferir se estava realmente no quarto de minha casa. Segurei numa das gavetas da cômoda e me apoiei para ficar de pé. A mão puxou o pano brocado que decorava a cômoda que fazendo o candelabro cair com sua cera quente sobre o meu rosto. O fogo se espalhou rápido por entre os cacos das garrafas de Bourbon que ainda ensopavam os tapetes aos pés da cama. Com a luz do fogo alto, pude ler o papel que agora se punha em chamas: Reisenweber’s Café – Columbus Circle, 58th Street and 8th Avenue, Manhattan. Antes que a fumaça me envolvesse totalmente até a morte, lembrei de Dora, a dançarina. Sim, era ela a quem tanto desejei. Por que matei-a? Antes da resposta, a morte me alcançou.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

VOLTA ÀS RAÍZES

Vou a Portugal como quem ansioso caminha
Trilhar às avessas o mesmo curso que fez Pero Vaz
Pousarei em terra alfacinha
Capital da nação de um povo audaz.

Quero saudar o túmulo de Cabral
Homem bravo e “bestial”!

Tal qual Gusmão em sua passarola
Verei do alto o mar já tantas vezes navegado
Onde jazem bravos navegantes
E o estuário do Tejo ao som do fado
Me lembrará Camões e as aventuras gigantes

Ah, D. Manuel!
Criador de Portugal
Beijaria seu imperial anel
Reverenciando a coragem sem igual

E gritaria para sua corte
Povo luso bravo e forte!
Sereis imortais por todo o mundo
Que ainda treme com seus contos lendários
Marcando na pedra em profundo
A gloriosa história dos Templários.

Tens sua marca nos quatro cantos
Ásia, América, África e Europa
Muitos lhe causaram alguns quebrantos
Mas isto é coisa de outrora

Quisera tivéssemos no Brasil
Em sua insossa história juvenil
Bravos guerreiros com louvor
Tais como D. Gonçalo O Lidador

Voltarei no tempo criadouro
De uma nação brasileira
Que costas voltou ao antigo feudo mouro
Acabando de vez na algibeira.

Ao chegar a este mágico local
Humildemente me curvarei
Diante de tu ó Portugal
Por meus antepassados chorarei.