“Às vezes creio que personifico o inconsciente obscuro da raça humana. Sei que soa mal porém me encanta...” Vincent Price
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Minh’alma Avoada.
É alegre o vôo da pipa
levando com ela minh’alma ligada ao meu corpo pela fina e frágil linha de
algodão. Eu aqui no chão e minh’alma no céu. Meus pensamentos estão lá, no meio
das nuvens, em conversas vivas com as andorinhas que anunciam a chegada da
chuva no final do dia. Sinto o cheiro úmido de terra molhada vindo de longe. De
repente vem outra pipa, feroz e rápida, vinda de não sei onde e num piscar de
olhos ceifa minha linha fazendo minha pipa balouçar sem controle, desconectada
de meu corpo. Corro sem saber onde piso, num caminho cheio de pedras, fenestras
e tropeços e com olhar fixo na inanimada pipa largada ao vento como mecha de
cabelo cortado, numa tentativa vã de salvá-la para resgatar minha alegria. Outros
meninos correm para roubarem de mim o precioso troféu e se encherem de maneira
espúria, da minh’alma e de minha alegria. É lícito pelas regras da vida. Pipa
“avoada” perde seu dono, dizem. Caio ao chão sem perde-la de vista e assisto a
pipa prender-se serenamente no alto de uma frondosa mangueira carregada de flores
anunciando em sua profusão de rosa, verde, ferrugem e marron, a profícua
colheita vindoura. Com os joelhos ralados cheios de terra misturada ao sangue
que brota em pontinhos brilhantes eu grito:
_Vitória! Ainda verei uma parte de mim, mesmo que só o esqueleto em
varetas de bambu, no topo desta mangueira! E quando as doces mangas começarem a
cair, maduras pelo sol de janeiro, terei em minha boca o doce sabor de meus
sonhos!
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Vingança
A cerveja
desceu suave. Era como se tivesse aberto o caminho com uma dose de steinhaeger
antes do gole merecido da bebida gelada. Olhos cerrados, franzindo suas
têmporas que já apresentavam algumas rugas do tempo, o punho forte levantando a
caneca de vidro transparente, levando como um guindaste criado pelo conjunto
braço, punho, caneca e cabeça, a cerveja escorrer pelos cantos da boca. A cabeça
inclinada evidenciava o pomo de adão, único a mostrar que o líquido descia
escandalosamente rápido pela sua garganta. Em menos de 20 segundos, jogou sua
cabeça para frente, maxilar travado, lábios dramaticamente abertos com um ruído
sibilante saindo por entre os dentes amarelados pelo cigarro. A caneca bateu no
balcão como um martelo. Um gemido de prazer em forma de um interminável “ah”
fez o barman trazer, sem ser consultado, mais uma caneca com a bela bebida
encimada por uma cândida espuma.
_ Este
primeiro desceu bem. Foi para matar minha sede. Este segundo, bem, este é para
sorver com calma e aproveitar o sabor. Não, não quero nada para comer. Quero
sentir o álcool entrando sem interferências em meu sangue. Quero meu cérebro
ébrio. Morrer de barriga cheia não me parece ser coisa boa. Não gosto de pensar
na comida apodrecendo mais rápido que minha carne. Deve ser como um porco ou um
perú recheados com frutas, farofas e outros recheios. Mortos mas estufados de
comida. Eu disse a ela que fosse primeiro. Eu precisava passar aqui neste bar
que tantas vezes me acolheu em minhas incertezas e nas errantes certezas. Ela
insistiu para que eu ficasse. Para quê? Perpetuar o sofrimento? Manter por mais
alguns minutos nossa tragédia viva? Ser ao seu lado, cúmplice de sua envolvente
loucura que me leva agora a este extremo? Não! Ela que vá primeiro. Antes eu
tinha que vir até o bar. Sempre foi assim! Ela concordou a contragosto.
_ Você
prepara para mim? Acho que tenho medo – disse ela tranquilamente, certa de ter
escolhido esta opção em por fim a sua vida.
_ Ora, eu
preparo para você. Não corroo risco de ser preso por este delito. Não numa
cadeia. Talvez num caixão barato. Mas só o meu corpo. Você me espera do outro
lado como combinamos, ok?
_ Claro,
meu amor. Não vou te decepcionar. Sou sua para sempre, aqui e depois da morte.
Vamos viver eternamente!
Preparei o
veneno como quem prepara um delicioso drink. Levei o copo até ela que pediu:
_ Agora
sai. Não quero que você veja. Vai beber sua cerveja, se despedir de seu bar
preferido. Estarei te esperando do outro lado. Confio em você.
Beijei sua
boca buscando seu sabor com minha já sentenciada língua. Saí andando de costas
e fechei a porta fazendo seu lindo e sorridente rosto desaparecer.
A segunda
caneca acabou. _ Bebo outro ou paro por aqui? – pensei. Ora, vou tomar mais um
e tomar coragem para concluir o que já está decidido. A terceira caneca chegou.
Parecia mais brilhante, amarelo ouro, com a espuma branca e espessa
contrastando com o escuro ambiente do bar. Talvez tenha olhado para a caneca
com certa nostalgia, e percebido detalhes que antes não levava em conta. O que
antes era apenas uma caneca de cerveja, parecia agora um presente de Deus, uma
dádiva, um maná. Tirei do bolso de meu paletó o pequeno frasco do potente
veneno e bebi de um só gole. Antes que ele chegasse ao estômago, tomei o
conteúdo da caneca da mesma maneira que fiz com a primeira. Sem saber quanto
tempo levaria para morrer, tirei umas notas de dinheiro do bolso e deixei no
balcão. Não queria ir para o outro lado deixando dívidas de bar. Já as de
banco, quem se importa com isso? Sempre me roubaram todos estes anos.
O bar
começou a parecer turvo, minha cabeça ficou dormente, um gosto amargo de sangue
subiu por minha garganta enchendo minha boca com seu ferruginoso sabor. Minha
cabeça caiu inerte e pesada sobre o balcão, da mesma forma que eu fizera com as
canecas durante dezenas de anos.
Saí de meu
corpo, sentindo-me leve. Vi todos do bar correndo e tentando me reanimar. Achei
aquilo engraçado pois sabia que era em vão. Virei para a porta, instintivamente
buscando a saída e vi minha amada. Para minha surpresa, ela não estava morta.
Estava acompanhada de uma outra, de mãos dadas. Olhou para meu corpo caído, com
as pessoas se afastando por não terem mais nada a fazer, olhou para sua
companheira e esboçaram um sorriso, saindo em seguida.
Pobre
amada. Desde então assombro sua vida, transformando em medo todas as coisas a
sua volta. Serei impiedoso em minha vingança até o dia que eu conseguir
trazê-la para o meu lado. E ela será eternamente minha.
Paul Richard Ugo
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Paul Richard assina com a Editora Autografia.
Paul Richard Ugo assinou contrato para a publicação de seu livro de contos CONTOS DE ALGUNS LUGARES com a Editora Autografia. São 22 contos de mistério, suspense e terror psicológico que deverá estar nas livrarias até o final de 2015. Aqui no blog você poderá ler alguns trechos e outros por inteiro, dos contos que compõem o livro.
domingo, 28 de junho de 2015
FIM DE DOMINGO
Resisto. Resisto ao sono que insiste em me dominar. Já passa
de meia noite e, daí já é segunda feira. Mas insisto em prolongar o domingo.
Segunda será só depois que eu acordar. A rotina da semana que começará daqui a
pouco já me deixa incomodado. A dureza das obrigações, do trabalho, das contas,
da falta de tempo para nada fazer, ou de fazer aquilo que se gosta, me tira a
paz. Paz que tenho agora, sozinho diante de mim mesmo, sem máscaras ou sem
personagens. A azia sobe pela minha garganta me lembrando dos excessos
intermináveis de bebidas e comidas dominicais, mas isso não me soa ruim. Mas ainda
há tempo de mais uma dose pois o meu domingo deve continuar. Nem que por mais
um gole. Preencho o vazio que os problemas deixam em minha vida, como meteoros
que abrem crateras em solo fértil, escrevendo, ouvindo e vendo coisas que me enchem
a alma. E que me emocionam. Sei da inevitável responsabilidade das coisas que
virão com a segunda feira. Mas, olhando-as daqui, do alto de minha alma plena de
criatividade, sedenta de arte e estética, sempre em busca do sentido mais puro
de minha existência, vejo que são coisas menores, mas tal qual cupins, nos
corroem a vida. O sono arde em meus olhos. O tictac interminável do relógio
agora soa mais alto. O silêncio me faz ouvir minha alma vibrando e me faz perceber
a impossibilidade de que a busca por este acúmulo de informações, experiências
e compreensão do que realmente sou possa terminar um dia. Não. Além do legado que
deixamos com nossos filhos, da interação com outras pessoas, do que ensinamos,
do que construímos, do que produzimos, do que plantamos e que ficarão para
outras gerações, percebo cada vez mais que no final, levaremos esta bagagem
intangível do conhecimento para algum lugar que só reconheceremos na hora final.
E que será o nosso ponto de partida para uma outra viagem.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Alegres Folhas Mortas
Neste momento já é alta a
madrugada, quando todos dormem e o silêncio me envolve. É hora que meus
pensamentos me transportam a um quase transe e me levam a escrever. Lá fora, ao
longe, ouço mansas ondas quebrando na praia. A brisa leve faz as folhas secas
farfalharem baixinho ao correrem alegres pela varanda como crianças noturnas
brincando livres dos olhos dos pais. Encho minha taça com um pouco mais do
tinto italiano da Toscana. Continuo a escrever de onde parei na noite anterior. Mais um conto para concluir meu livro. E este último, tão assustador que não
parece ter sido escrito por mim. Olho para o relógio que marca agora três
horas. O silêncio agora é total. E sei o que isso quer dizer. E tiro proveito
desta hora, profícua para estar em contato com o sobrenatural. Estou quase no
final do último parágrafo do conto e ouço agora paços se aproximando pela
varanda. Apago rapidamente o abajur e acendo as luzes da varanda. Corro agora
até uma seteira de onde consigo observar toda a varanda para tentar ver alguma
coisa por entre a névoa. Não vejo ninguém. Os passos agora estão mais fortes e
consigo ver aterrorizado, as pobres folhas secas antes faceiras e brincalhonas
sendo amassadas por invisíveis pegadas. O ar me falta aos pulmões de tanto
pavor. Agora, ouço fracas batidas na porta. Me ponho diante dela e pergunto
baixinho, evitando acordar minha família: _ quem é você e o que quer? – Uma voz
masculina grave, porém em tom amistoso e cordial responde: _ abra a porta, pois
assim entrarei e saberá quem sou. Não
temas, pois, estou aqui para concluir o que minha morte interrompeu. Seguro a
maçaneta que estava mais gelada ainda que minhas mãos trêmulas e abro a porta
vagarosamente, num rompante de coragem e medo. Uma forte rajada de vento cuida
agora de abrir totalmente a porta, fazendo entrarem as alegres e mortas folhas
secas. Com a visão prejudicada pela poeira que me vem aos olhos não consigo ver
nada além das folhas, da névoa e da escuridão da noite. Fecho a porta contra a
força do vento que aos poucos enfraquece. Ainda assustado, tentando imaginar o porquê
de tal alucinação, volto agora para a sala e para minha surpresa, sobre a mesa
onde escrevi as últimas palavras de meu novo livro, vejo pequenas folhas secas
formando, numa graciosa dança coreografada, a palavra “obrigado”. Sem entender,
ainda atônito e assustado, olho agora para as folhas de papel onde posso agora
ver surgirem do nada, o texto que vou relatar agora, conforme as palavras estão
se formando: “_e agora me despeço deste escritor que tão boa forma deu às
histórias que o intuí e por muitas vezes soprei aos seus ouvidos da alma. Este
é o livro que ficou pendente todos estes anos depois que o cancro resultou em
minha morte. Durante este tempo, não encontrei alguém que pudesse ser sensível
o suficiente para transcrever meus últimos contos. Agora está concluído. Posso
descansar em paz e seguir o meu caminho em busca do conhecimento eterno. Meu
nome é H P Lovecraft. E passo a você, todo o meu dom para continuar a escrever.
Emocionado, vejo agora que as
folhas secas se levantam num pequeno ciclone, caminham pela sala
silenciosamente em seu turbilhão e passam por debaixo da porta. Não sou mais o
mesmo. Carrego agora uma responsabilidade. Recebi um fardo do qual procurarei
honrá-lo. Espero não decepcionar. CLIQUE AQUI E LEIA ESTE E OUTROS CONTOS!
Manequim
As vitrines ali e eu, cansado de buscar não sei o que,
olhando a disformidade de minha imagem tal espelhos de parque de diversões
mambembe. Mas, é verdade. Não sou mais quem acho que sou. A idade é cruel e
agora, por um rápido lampejo, vejo minha real imagem. Me assusto. Não tem
volta. O narcisismo cai no chão e me desespero silenciosamente. Com um sorriso
disfarçado, me lanço na felicidade dura dos manequins da vitrine. Sempre
jovens, com as melhores roupas, invejados em suas formas. Mas, como eu, preso em
minhas imagens distorcidas, eles estão presos em suas vitrines. Eles vêem a
vida passando com seus olhos de vidro. Eu envelheço. Sigo em frente a caminho
do final certeiro. Eles ficam olhando. Nas vitrines.
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