terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Minh’alma Avoada.

 É alegre o vôo da pipa levando com ela minh’alma ligada ao meu corpo pela fina e frágil linha de algodão. Eu aqui no chão e minh’alma no céu. Meus pensamentos estão lá, no meio das nuvens, em conversas vivas com as andorinhas que anunciam a chegada da chuva no final do dia. Sinto o cheiro úmido de terra molhada vindo de longe. De repente vem outra pipa, feroz e rápida, vinda de não sei onde e num piscar de olhos ceifa minha linha fazendo minha pipa balouçar sem controle, desconectada de meu corpo. Corro sem saber onde piso, num caminho cheio de pedras, fenestras e tropeços e com olhar fixo na inanimada pipa largada ao vento como mecha de cabelo cortado, numa tentativa vã de salvá-la para resgatar minha alegria. Outros meninos correm para roubarem de mim o precioso troféu e se encherem de maneira espúria, da minh’alma e de minha alegria. É lícito pelas regras da vida. Pipa “avoada” perde seu dono, dizem. Caio ao chão sem perde-la de vista e assisto a pipa prender-se serenamente no alto de uma frondosa mangueira carregada de flores anunciando em sua profusão de rosa, verde, ferrugem e marron, a profícua colheita vindoura. Com os joelhos ralados cheios de terra misturada ao sangue que brota em pontinhos brilhantes eu grito:  _Vitória! Ainda verei uma parte de mim, mesmo que só o esqueleto em varetas de bambu, no topo desta mangueira! E quando as doces mangas começarem a cair, maduras pelo sol de janeiro, terei em minha boca o doce sabor de meus sonhos!

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Vingança

A cerveja desceu suave. Era como se tivesse aberto o caminho com uma dose de steinhaeger antes do gole merecido da bebida gelada. Olhos cerrados, franzindo suas têmporas que já apresentavam algumas rugas do tempo, o punho forte levantando a caneca de vidro transparente, levando como um guindaste criado pelo conjunto braço, punho, caneca e cabeça, a cerveja escorrer pelos cantos da boca. A cabeça inclinada evidenciava o pomo de adão, único a mostrar que o líquido descia escandalosamente rápido pela sua garganta. Em menos de 20 segundos, jogou sua cabeça para frente, maxilar travado, lábios dramaticamente abertos com um ruído sibilante saindo por entre os dentes amarelados pelo cigarro. A caneca bateu no balcão como um martelo. Um gemido de prazer em forma de um interminável “ah” fez o barman trazer, sem ser consultado, mais uma caneca com a bela bebida encimada por uma cândida espuma.
_ Este primeiro desceu bem. Foi para matar minha sede. Este segundo, bem, este é para sorver com calma e aproveitar o sabor. Não, não quero nada para comer. Quero sentir o álcool entrando sem interferências em meu sangue. Quero meu cérebro ébrio. Morrer de barriga cheia não me parece ser coisa boa. Não gosto de pensar na comida apodrecendo mais rápido que minha carne. Deve ser como um porco ou um perú recheados com frutas, farofas e outros recheios. Mortos mas estufados de comida. Eu disse a ela que fosse primeiro. Eu precisava passar aqui neste bar que tantas vezes me acolheu em minhas incertezas e nas errantes certezas. Ela insistiu para que eu ficasse. Para quê? Perpetuar o sofrimento? Manter por mais alguns minutos nossa tragédia viva? Ser ao seu lado, cúmplice de sua envolvente loucura que me leva agora a este extremo? Não! Ela que vá primeiro. Antes eu tinha que vir até o bar. Sempre foi assim! Ela concordou a contragosto.
_ Você prepara para mim? Acho que tenho medo – disse ela tranquilamente, certa de ter escolhido esta opção em por fim a sua vida.
_ Ora, eu preparo para você. Não corroo risco de ser preso por este delito. Não numa cadeia. Talvez num caixão barato. Mas só o meu corpo. Você me espera do outro lado como combinamos, ok?
_ Claro, meu amor. Não vou te decepcionar. Sou sua para sempre, aqui e depois da morte. Vamos viver eternamente!
Preparei o veneno como quem prepara um delicioso drink. Levei o copo até ela que pediu:
_ Agora sai. Não quero que você veja. Vai beber sua cerveja, se despedir de seu bar preferido. Estarei te esperando do outro lado. Confio em você.
Beijei sua boca buscando seu sabor com minha já sentenciada língua. Saí andando de costas e fechei a porta fazendo seu lindo e sorridente rosto desaparecer.
A segunda caneca acabou. _ Bebo outro ou paro por aqui? – pensei. Ora, vou tomar mais um e tomar coragem para concluir o que já está decidido. A terceira caneca chegou. Parecia mais brilhante, amarelo ouro, com a espuma branca e espessa contrastando com o escuro ambiente do bar. Talvez tenha olhado para a caneca com certa nostalgia, e percebido detalhes que antes não levava em conta. O que antes era apenas uma caneca de cerveja, parecia agora um presente de Deus, uma dádiva, um maná. Tirei do bolso de meu paletó o pequeno frasco do potente veneno e bebi de um só gole. Antes que ele chegasse ao estômago, tomei o conteúdo da caneca da mesma maneira que fiz com a primeira. Sem saber quanto tempo levaria para morrer, tirei umas notas de dinheiro do bolso e deixei no balcão. Não queria ir para o outro lado deixando dívidas de bar. Já as de banco, quem se importa com isso? Sempre me roubaram todos estes anos.
O bar começou a parecer turvo, minha cabeça ficou dormente, um gosto amargo de sangue subiu por minha garganta enchendo minha boca com seu ferruginoso sabor. Minha cabeça caiu inerte e pesada sobre o balcão, da mesma forma que eu fizera com as canecas durante dezenas de anos.
Saí de meu corpo, sentindo-me leve. Vi todos do bar correndo e tentando me reanimar. Achei aquilo engraçado pois sabia que era em vão. Virei para a porta, instintivamente buscando a saída e vi minha amada. Para minha surpresa, ela não estava morta. Estava acompanhada de uma outra, de mãos dadas. Olhou para meu corpo caído, com as pessoas se afastando por não terem mais nada a fazer, olhou para sua companheira e esboçaram um sorriso, saindo em seguida.
Pobre amada. Desde então assombro sua vida, transformando em medo todas as coisas a sua volta. Serei impiedoso em minha vingança até o dia que eu conseguir trazê-la para o meu lado. E ela será eternamente minha.



Paul Richard Ugo

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Paul Richard assina com a Editora Autografia.

Paul Richard Ugo assinou contrato para a publicação de seu livro de contos CONTOS DE ALGUNS LUGARES com a Editora Autografia. São 22 contos de mistério, suspense e terror psicológico que deverá estar nas livrarias até o final de 2015. Aqui no blog você poderá ler alguns trechos e outros por inteiro, dos contos que compõem o livro.

domingo, 28 de junho de 2015

FIM DE DOMINGO

Resisto. Resisto ao sono que insiste em me dominar. Já passa de meia noite e, daí já é segunda feira. Mas insisto em prolongar o domingo. Segunda será só depois que eu acordar. A rotina da semana que começará daqui a pouco já me deixa incomodado. A dureza das obrigações, do trabalho, das contas, da falta de tempo para nada fazer, ou de fazer aquilo que se gosta, me tira a paz. Paz que tenho agora, sozinho diante de mim mesmo, sem máscaras ou sem personagens. A azia sobe pela minha garganta me lembrando dos excessos intermináveis de bebidas e comidas dominicais, mas isso não me soa ruim. Mas ainda há tempo de mais uma dose pois o meu domingo deve continuar. Nem que por mais um gole. Preencho o vazio que os problemas deixam em minha vida, como meteoros que abrem crateras em solo fértil, escrevendo, ouvindo e vendo coisas que me enchem a alma. E que me emocionam. Sei da inevitável responsabilidade das coisas que virão com a segunda feira. Mas, olhando-as daqui, do alto de minha alma plena de criatividade, sedenta de arte e estética, sempre em busca do sentido mais puro de minha existência, vejo que são coisas menores, mas tal qual cupins, nos corroem a vida. O sono arde em meus olhos. O tictac interminável do relógio agora soa mais alto. O silêncio me faz ouvir minha alma vibrando e me faz perceber a impossibilidade de que a busca por este acúmulo de informações, experiências e compreensão do que realmente sou possa terminar um dia. Não. Além do legado que deixamos com nossos filhos, da interação com outras pessoas, do que ensinamos, do que construímos, do que produzimos, do que plantamos e que ficarão para outras gerações, percebo cada vez mais que no final, levaremos esta bagagem intangível do conhecimento para algum lugar que só reconheceremos na hora final. E que será o nosso ponto de partida para uma outra viagem.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Alegres Folhas Mortas

Neste momento já é alta a madrugada, quando todos dormem e o silêncio me envolve. É hora que meus pensamentos me transportam a um quase transe e me levam a escrever. Lá fora, ao longe, ouço mansas ondas quebrando na praia. A brisa leve faz as folhas secas farfalharem baixinho ao correrem alegres pela varanda como crianças noturnas brincando livres dos olhos dos pais. Encho minha taça com um pouco mais do tinto italiano da Toscana. Continuo a escrever de onde parei na noite anterior. Mais um conto para concluir meu livro. E este último, tão assustador que não parece ter sido escrito por mim. Olho para o relógio que marca agora três horas. O silêncio agora é total. E sei o que isso quer dizer. E tiro proveito desta hora, profícua para estar em contato com o sobrenatural. Estou quase no final do último parágrafo do conto e ouço agora paços se aproximando pela varanda. Apago rapidamente o abajur e acendo as luzes da varanda. Corro agora até uma seteira de onde consigo observar toda a varanda para tentar ver alguma coisa por entre a névoa. Não vejo ninguém. Os passos agora estão mais fortes e consigo ver aterrorizado, as pobres folhas secas antes faceiras e brincalhonas sendo amassadas por invisíveis pegadas. O ar me falta aos pulmões de tanto pavor. Agora, ouço fracas batidas na porta. Me ponho diante dela e pergunto baixinho, evitando acordar minha família: _ quem é você e o que quer? – Uma voz masculina grave, porém em tom amistoso e cordial responde: _ abra a porta, pois assim entrarei e saberá quem sou.  Não temas, pois, estou aqui para concluir o que minha morte interrompeu. Seguro a maçaneta que estava mais gelada ainda que minhas mãos trêmulas e abro a porta vagarosamente, num rompante de coragem e medo. Uma forte rajada de vento cuida agora de abrir totalmente a porta, fazendo entrarem as alegres e mortas folhas secas. Com a visão prejudicada pela poeira que me vem aos olhos não consigo ver nada além das folhas, da névoa e da escuridão da noite. Fecho a porta contra a força do vento que aos poucos enfraquece. Ainda assustado, tentando imaginar o porquê de tal alucinação, volto agora para a sala e para minha surpresa, sobre a mesa onde escrevi as últimas palavras de meu novo livro, vejo pequenas folhas secas formando, numa graciosa dança coreografada, a palavra “obrigado”. Sem entender, ainda atônito e assustado, olho agora para as folhas de papel onde posso agora ver surgirem do nada, o texto que vou relatar agora, conforme as palavras estão se formando: “_e agora me despeço deste escritor que tão boa forma deu às histórias que o intuí e por muitas vezes soprei aos seus ouvidos da alma. Este é o livro que ficou pendente todos estes anos depois que o cancro resultou em minha morte. Durante este tempo, não encontrei alguém que pudesse ser sensível o suficiente para transcrever meus últimos contos. Agora está concluído. Posso descansar em paz e seguir o meu caminho em busca do conhecimento eterno. Meu nome é H P Lovecraft. E passo a você, todo o meu dom para continuar a escrever.

Emocionado, vejo agora que as folhas secas se levantam num pequeno ciclone, caminham pela sala silenciosamente em seu turbilhão e passam por debaixo da porta. Não sou mais o mesmo. Carrego agora uma responsabilidade. Recebi um fardo do qual procurarei honrá-lo. Espero não decepcionar. CLIQUE AQUI E LEIA ESTE E OUTROS CONTOS!

Manequim

As vitrines ali e eu, cansado de buscar não sei o que, olhando a disformidade de minha imagem tal espelhos de parque de diversões mambembe. Mas, é verdade. Não sou mais quem acho que sou. A idade é cruel e agora, por um rápido lampejo, vejo minha real imagem. Me assusto. Não tem volta. O narcisismo cai no chão e me desespero silenciosamente. Com um sorriso disfarçado, me lanço na felicidade dura dos manequins da vitrine. Sempre jovens, com as melhores roupas, invejados em suas formas. Mas, como eu, preso em minhas imagens distorcidas, eles estão presos em suas vitrines. Eles vêem a vida passando com seus olhos de vidro. Eu envelheço. Sigo em frente a caminho do final certeiro. Eles ficam olhando. Nas vitrines.